“As plantas não tinham precisado de pelejar”: plantation, habitar colonial e ressurgência ecológica em quatro obras da literatura contemporânea
plantation; Antropoceno; ecocrítica; habitar colonial; literatura contemporânea
Esta tese propõe o exame de quatro narrativas breves contemporâneas: a novela “A visão das plantas” (2021), da angolana Djaimilia Pereira de Almeida; o conto “Má sorte”, da brasileira Paulliny Tort (2021); o conto “Teia de aranha”, da argentina Mariana Enríquez (2016); e a novela “Bugônia”, do brasileiro Daniel Galera (2021). A pesquisa sugere analisar a plantation, a plantação monocultural de larga extensão, como a matriz geometabólica do Antropoceno, cuja existência é ocultada pelas astúcias ideológicas do capitalismo tardio (Jameson, 1996, 2021), geralmente esquecida pelos habitantes da cidade, como um “atraso” ou um anacronismo agrário préindustrial, mas capaz de estruturar mentalidades que vão da ocupação fundiária à constituição de sujeitos, com efeitos nefastos sobre o próprio pensamento (Morton, 2023). Para decodificar essas engrenagens, que terminam por conformar essa alteração completa de nossa relação com o mundo, nos termos de Bruno Latour (2020), sugerese analisar a arquitetura da plantation em quatro pilares fundamentais: (i) a naturalização do domínio sobre a terra e os viventes, alicerçada na ficção da terra nullius e na gestão da morte de todos os seres, uma necropolítica (Mbembe, 2020, 2025); (ii) o regime de trabalho humano exploratório, decisivo para o desenvolvimento capitalista (Federici, 2023), assente na violência racializada e a remoção de populações originárias, criando uma das fraturas coloniais (Ferdinand, 2022, 2026); (iii) a consolidação de uma cultura patriarcalista e hierarquizante, responsável por forjar um sujeito específico e hegemônico, sob amparo religioso e com força política (Bona, 2025; Chao, 2022; Segato, 2021); e (iv) a imposição da homogeneidade biológica, caracterizada pela simplificação ecológica radical, vinculada à domesticação botânica colonial, transformando seres em meros recursos, invisibilidade sistêmica (Coccia, 2018; Nascimento, 2021). Esses pilares montariam a engrenagem maquínica do “habitar colonial”, conforme proposto por Malcom Ferdinand (2022), a “terra sem mundo”. Em um exercício de esperança, a partir da ideia de ressurgência (Bona, 2025; Tsing, 2018), propõe-se uma análise ecocrítica dessas quatro narrativas, para se pensar como a literatura consegue fissurar essas epistemologias rígidas da raiz antropocênica da plantation e, ao menos por instantes, desnaturalizar essas hierarquias maquínicas. As narrativas oferecem, cada uma à sua maneira, propostas estéticas, que nos levam a sugerir uma ética ecológica para habitar o planeta.