Nas encruzilhadas das experiências e dos letramentos: leituras da mulher velha em Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende.
Literatura brasileira contemporânea; Autoria feminina; Maria Valéria Rezende; Letramento literário; Formação docente; Praxiologias decoloniais.
Esta tese analisa o envelhecimento feminino no romance Quarenta dias (2014), de Maria Valéria Rezende, a partir da trajetória de Alice. Professora aposentada, ela é compelida a deixar João Pessoa para viver em Porto Alegre, onde percorre quarenta dias de errância por espaços periféricos inexplorados em busca de um jovem migrante nordestino desaparecido. A investigação desenvolve uma leitura crítica do livro com o objetivo de visibilizar as vozes e os corpos femininos envelhecidos na literatura brasileira contemporânea, à luz da crítica literária feminista, da crítica feminista negra e dos estudos decoloniais, em perspectiva interseccional. Metodologicamente, trata-se de um estudo qualitativo, de caráter bibliográfico e documental, articulado à escuta de professores e orientado pela escrevivência como perspectiva analítica. A pesquisa fundamenta-se em referenciais da crítica literária feminista, da crítica feminista negra, dos estudos decoloniais e dos letramentos críticos, dialogando, entre outros, com Patricia Hill Collins (2021), Lélia Gonzalez (2020), Simone de Beauvoir (2018), Conceição Evaristo (2016), bell hooks (2015; 2013), Judith Butler (2003) e Paulo Freire (1996). Ao acompanhar os deslocamentos físicos, simbólicos e subjetivos de Alice, este estudo revela como a narrativa tensiona fronteiras entre público e privado, centro e margem, individual e coletivo. A análise demonstra que Rezende constrói uma protagonista que rompe com representações cristalizadas da velhice, reposicionando-a como sujeito de desejo, memória, agência e resistência na literatura contemporânea. Os resultados indicam que a obra se insere em uma produção literária comprometida com o des-silenciamento de sujeitos historicamente invisibilizados. Em diálogo com a escuta de professores participantes da pesquisa, esta investigação evidencia, ainda, que o letramento literário em perspectiva decolonial permite práticas de leitura e de escuta mais críticas e plurais. Nesse sentido, a tese propõe reflexões praxiológicas voltadas à formação docente, defendendo pedagogias que valorizem experiências dissidentes, corpos marginalizados e outras epistemologias, ampliando as possibilidades de leitura das múltiplas formas de envelhecer.