MULHER-MONSTRO: Figurações da bruxa em três contos de Mónica Ojeda.
Bruxa; corpo; violência; família; colonização.
Invisibilizada no chamado boom latinoamericano dos anos 60, a literatura escrita por mulheres na América Latina tornou-se foco da mídia nacional e internacional nos últimos anos, “movimento” que passou a ser conhecido como “novo boom” latinoamericano. Considerado por muitas das escritoras como uma categorização exotizante e puramente comercial, o dito “novo boom” vem sendo questionado e reconfigurado por muitas dessas escritoras. A equatoriana Mónica Ojeda é uma das autoras que não concorda com a categorização mas que, como outras escritoras contemporâneas e anteriores a ela, trabalha sua literatura a partir de temas como o medo e o corpo feminino. Em Las Voladoras, livro de contos publicado no Brasil em 2023, Ojeda propõe escrever a partir do que entende como Gótico Andino, trabalhando a intersecção de temas como colonização, hibridismo cultural, violência de gênero e corpo, utilizando como substrato a geografia, os mitos, lendas e monstros andinos. Este trabalho tem por objetivo estudar, a partir da análise dos contos Voladoras, Sangre Coagulada e Cabeza Voladora, de que maneiras Ojeda aborda as conexões entre colonização, família, patriarcado e violência de gênero, utilizando a figura da bruxa como força motriz das narrativas. Em consonância com autoras como Silvia Federicci, Irene Silverblatt e Amaranta Pico Salguero, estudamos a figura da bruxa nos contos, focando em sua representação como um ser híbrido resultante da mistura cultural, que movimenta também conceitos heterogêneos como abjeção e desejo; civilização e natureza; ancestralidade e futuridade. A partir de autoras como Donna Haraway e Rosi Braidotti analisamos, ainda, a figura da bruxa como representação de futuridade possível a partir da formação de alianças intergeracionais e interespécies como maneiras de resistência e sobrevivência à violência patriarcal.