“Uma nova estranheza florescerá”: corpo, liberdade e política em Loba, de Diane di Prima
Diane di Prima; Espinosa; geração beat; Loba, imaginação, corpo, encorporação, política, feminismo.
Loba é uma obra poética da estadunidense Diane di Prima, escritora frequentemente associada à geração beat. A escrita da obra foi iniciada na década de 1970 e posteriormente reunida em edição ampliada com publicação em 1998. Por meio do resgate de imagens ancestrais do feminino e da criação de novas figurações da feminilidade, Loba “encorpora” elementos diversos, a saber, mulheres, animais, seres míticos e forças sobrenaturais, o que desestabiliza as concepções dominantes sobre o feminino e a corporeidade. A partir de uma perspectiva que analisa a relação entre a trajetória de vida e artística da escritora, esta tese investiga de que modo Loba contribui para questionar representações filosóficas e políticas do corpo humano que, na tradição ocidental, tomaram implicitamente o corpo masculino como parâmetro de universalidade, neutralidade e racionalidade. Para desenvolver essa análise, o trabalho dialoga principalmente com Elizabeth Grosz, Genevieve Lloyd e Moira Gatens, filósofas que, a partir da ontologia de Bento de Espinosa, buscam erradicar os dualismos entre mente e corpo, natureza e cultura, essência e construção social, sexo e gênero, espírito e matéria, razão e emoção. A noção de encorporação desenvolvida a partir das teorias dessas filósofas permite, nesse contexto, compreender os corpos não como entidades abstratas e universais, mas como materialidades múltiplas, relacionais e atravessadas por diferenças. Assim, Loba produz outras formas de conceber o feminino, deslocando os limites do que pode ser imaginado, desejado e vivido pelos corpos das mulheres. Ao transformar o campo do imaginável, a poesia pode ampliar as possibilidades de existência, liberdade e ação coletiva. Nesse sentido, ao articular literatura, filosofia e política, este estudo compreende a imaginação poética não apenas como representação do mundo, mas como potência capaz de abrir possibilidades de existências ainda não realizadas e de produzir outros modos de vida comum.