Sonhos de futuro e liberdade: a escrita afrofuturista como tecnologia ancestral
afrofuturismo; escrita; ficção especulativa; tecnologia ancestral; Octavia E. Butler.
Este trabalho tem como objetivo analisar o afrofuturismo a partir da ideia de que, para
pessoas negras, a escrita é uma tecnologia ancestral. O afrofuturismo, como estética e
teoria crítica (Womack, 2013), visa questionar, promover e analisar obras especulativas de
autoras e autores negros. Dentro desse conceito, é necessário que se tenha a negritude
abordada como temática (Coleman, 2019) a partir de uma postura que considera a
experiência negra no mundo extratextual, bem como o entendimento do tempo como
mecanismo cíclico que aprisiona a população negra em opressões em um presente que
reverbera memórias da escravização (Kilomba, 2019). Além disso, dentro da não
linearidade do tempo, o discurso do afrofuturismo pode ser entendido como uma
ferramenta tecnológica que imagina reelaborações sociais no presente para proporcionar
a criação de futuros mais livres fora da ficção. Nesse sentido, a obra da autora
estadunidense Octavia E. Butler — em especial os romances Kindred (1979) e Despertar
(1987) — será analisada tendo em mente os aspectos conceituais e estéticos do
afrofuturismo, bem como as temáticas desenvolvidas em conexão com esse discurso. Em
seus textos, também há a presença de protagonistas que no geral escrevem para manter
registros da memória ou que possuem a escrita como ofício, demonstrando a importância
da prática para a construção de subjetividade e para a luta por liberdade. A escrita de
Butler é conhecida por abordar a continuidade do colonialismo no presente e no futuro,
mostrando contextos em que a opressão são atenuadas ou reelaboradas, mas que, ao
mesmo tempo, apontam para alternativas positivas — dualidade que será lida com base
nas ideias de afropessimismo (Wilderson III, 2020) e a afrotopia (Sarr, 2019).