Tanatografia e geopoesia em Machado de Assis e José J. Veiga: o sol nascente em narrativas subterrâneas
Machado de Assis; José J. Veiga; Geopoesia; Tanatografia; Narrativa subterrânea.
Esta tese conjuga os conceitos de geopoesia e tanatografia na leitura de dois romances de Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, e Memorial de Aires, de 1908) e em dois de José J. Veiga (A Hora dos Ruminantes, de 1966, e Sombras de Reis Barbudos, de 1972). Os conceitos, referentes respectivamente à “escrita da terra” (Silva Junior; Marques, 2016) e à “escrita de morte” (Silva Junior, 2014), sugerem certa equivalência diametral que marca as narrativas subterrâneas. Isso ocorre porque tais narrativas vinculam-se à tradição luciânica, que emerge das catábases (Sousa, 2013) menipeias e dos diálogos dos mortos (Samósata, 2012) rumo à eclosão do experimentalismo prosaico oitocentista, conforme Mikhail Bakhtin (2018). Assim, uma vez que os termos críticos denotam o telúrico e o funéreo, eles indicam saberes extraídos do “fundo da terra” (Bakhtin, 2010, p. 323) – arena alegoricamente associada ao submundo e aos infernos satíricos. Esse saber marca-se pela “Liberdade de espírito e de palavra” (Bakhtin, 2010, p. 79) e pela experimentação de “ideia filosófica” (Bakhtin, 2018, p. 130), em confronto com histórias e tradições hegemônicas. Em diálogo com Walter Benjamin, exploramos imagem alegórica inspirada no Icaromenipo luciânico para discutir as produções brasileiras indicadas: o sol nascente. A expressão coopera com nosso raciocínio por sugerir certo “clarão subterrâneo” (Benjamin, 1984, p. 252), fruto da “qualidade luciférica” da linguagem (Bolle, 2011), que elucida a realidade em movimento e dispersão. Desse modo, as narrativas subterrâneas mencionadas revelam o movimento dispersivo de esquartejar (representado tropologicamente pela alegoria) verdades autoritárias como um modo de veicular as dúvidas, os mistérios e o inconformismo da passagem do século XIX ao XX no Brasil.