BIOMASSA TOTAL EM ÁREAS DE CERRADO E CARRASCO NO BRASIL
Savana Neotropical, biomassa acima do solo, biomassa abaixo do solo, modelagem da biomassa, variáveis edáficas
No domínio da Savana Neotropical, poucos estudos quantificaram os estoques totais de biomassa, em razão do caráter moroso e oneroso dessas estimativas, especialmente da biomassa abaixo do solo. Neste estudo, inventários florestais foram realizados em parcelas temporárias de 1000 m² estabelecidas em áreas de cerrado sentido restrito e de Carrasco no Sudeste do Brasil, com o objetivo de quantificar e comparar os estoques totais e por compartimento de biomassa, bem como modelar a biomassa em áreas de cerrado sentido restrito a partir de variáveis estruturais e edáficas. Foram quantificados os compartimentos de biomassa lenhosa acima do solo, raízes, necromassa e serrapilheira. A biomassa arbórea acima do solo foi estimada por equação alométrica regional, considerando indivíduos com diâmetro medido a 0,3 m do solo ≥ 5 cm. As raízes foram amostradas pelo método da trincheira; a necromassa, pelo método da interseção de linhas; e a serrapilheira, por gabaritos de 0,25 m². No cerrado sentido restrito, a biomassa total foi de 45,24 Mg ha⁻¹, com predominância da biomassa lenhosa acima do solo (20,47 Mg ha⁻¹; 45%); seguida por raízes (18,47 Mg ha⁻¹; 41%); serrapilheira (5,49 Mg ha⁻¹; 12%); e necromassa (0,81 Mg ha⁻¹; 2%). No Carrasco, a biomassa total foi de 59,01 Mg ha⁻¹, dominada por raízes (32,37 Mg ha⁻¹; 55%); seguidas pela biomassa lenhosa acima do solo (16,57 Mg ha⁻¹; 28%); serrapilheira (8,39 Mg ha⁻¹; 14%); e necromassa (1,68 Mg ha⁻¹; 3%). Apesar da elevada densidade de indivíduos lenhosos de pequeno diâmetro nas áreas de Carrasco, os indivíduos do Cerrado contribuíram mais para o estoque total de biomassa devido ao maior diâmetro médio. Em contrapartida, no Carrasco, a biomassa radicular apresentou maior contribuição para o estoque total, possivelmente associada à elevada densidade de indivíduos e à sobreposição da malha de raízes, o que sugere limitações hídricas e nutricionais na subsuperfície, típicas de solos arenosos. As áreas de Cerrado e Carrasco diferiram significativamente em composição florística e em estoques de biomassa total, serrapilheira e biomassa de raízes, com destaque para o estoque subterrâneo superficial nas áreas de Carrasco, evidenciando que essa fisionomia apresenta características estruturais e funcionais próprias. A razão raiz:parte aérea foi inferior a 1 no Cerrado e superior a 1 no Carrasco, aproximando-se, respectivamente, dos padrões observados em savanas e em formações arbustivas e campestres ao redor do mundo. Para as áreas de cerrado sentido restrito, a biomassa foi modelada de forma hierárquica (biomassa total, biomassa total das árvores e biomassa arbórea acima do solo), utilizando área basal e variáveis físicas e químicas do solo. O desempenho dos modelos foi avaliado por meio da correlação entre valores observados e preditos (rŷy = 0,76; 0,72; 0,94) e do erro quadrático médio (RMSE = 24,40%; 27,06%; 18,10%) para os respectivos níveis. A inclusão de variáveis químicas do solo, como alumínio, magnésio e teor de areia, melhorou as estimativas de biomassa por unidade de área, evidenciando o papel das condições edáficas na estrutura e função da vegetação e reduzindo a dependência taxonômica. De modo geral, os resultados indicam que as características do solo influenciam o desempenho das espécies e a configuração das fisionomias no bioma Cerrado, refletindo padrões de adaptação das espécies lenhosas da Savana Neotropical a solos ácidos e nutricionalmente limitantes. Esses padrões se expressam na distribuição dos estoques de biomassa ao longo do bioma, reforçando a importância da inclusão da porção subterrânea e de variáveis edáficas na quantificação e modelagem da biomassa em ecossistemas savânicos.