Entre trânsfugas e assimilados: O Romance de Formação e a fundação do habitus cultivado
Bildungsroman; Romance de Formação; habitus; campo literário
A pesquisa aqui realizada tem como objeto as narrativas enquadradas pela crítica literária como Romances de Formação (Bildungsromane) e teve como objetivo confrontar, segundo uma perspectiva relacional, a interpretação apoiada em uma filosofia histórica das formas literárias. Contrapondo a classificação historicista dialética que está na origem do gênero Romance de Formação, segundo a qual as formas literárias seriam soluções históricas a questões universais, essa pesquisa visou reenquadra-lo em marcos sociológicos, enquanto uma prática narrativa com uma função na gênese do campo literário. A hipótese condutora da investigação é a de que a função das práticas narrativas que descrevem trajetórias de personagens com vocação intelectual ou artística é a afirmação de valores cons- tituintes de um habitus cultivado, primordial para a emergência de campos literários. Primeiramente foi realizada a análise da obra inaugural do gênero, “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”, retra-çando as trajetórias do autor e do protagonista a fim de objetivar suas disposições (ambições, estratégias) e as posições diferenciais ocupadas no campo literário (espaço de concorrência e determinação de hierar-quias de valor). No momento seguinte, foi realizada uma análise comparativa de estratégias similares em três contextos culturais diferentes, o inglês, o francês e o brasileiro. A comparação permitiu constatar como condicionantes ideológicos e políticos participam das estratégias de construção de um habitus cul-tivado em diferentes formações sociais em momento de instituição de seus campos literários.