A CIDADE DOS ENTREGADORES: circularidades de um bikeboy como o elo entre aplicativo e território em Brasília/DF
entregadores; trabalho; plataformas digitai; Brasília; cidade; urbano
Em um contexto de aumento das relações mediadas por plataformas digitais, os entregadores de aplicativo têm se constituído como atores centrais nas cidades em decorrência do avanço das empresas-aplicativos de delivery sobre o cotidiano. Nesse contexto, o objetivo dessa pesquisa foi compreender como os entregadores de aplicativo interagem com a cidade ao materializarem, nas cidades, os modos de funcionamento dessas plataformas. Para isso, foi realizada uma etnografia urbana enquanto entregador de bicicleta (bikeboy) em Brasília, Distrito Federal, especificamente na Asa Sul, com a intenção de colocar em paralelo os achados sobre essa região em conexão com as situações vivenciadas em campo. Guiado pela observação flutuante dentro da circularidade inerente à forma de funcionamento dos aplicativos, foi possível compreender que existe um imbricamento entre entregador e cidade. A cidade produz efeitos sobre o entregador e este, por sua vez, também produz adaptações, reafirmações e novas configurações urbanas ao tensionar fronteiras já estabelecidas e continuamente mantidas. É nessa perspectiva limiar entre a utilização constante e o distanciamento, a inclusão e a separação em questão de poucos minutos, que o entregador produz novas configurações urbanas que refletem, além das novas dinâmicas de trabalho, novas formas de relação e circulação na cidade. Ao mesmo tempo, em um contexto em que o capital exige cada vez mais a hipertrofia da circulação, o entregador pode ser encarado como uma infraestrutura própria, capaz de conectar de forma eficiente e com agência, produzindo o funcionamento efetivo de um aplicativo que não opera sozinho e que também apresenta erros e limitações. Esse encontro entre os efeitos da cidade e dos aplicativos produz aquilo que denomino como estado de vibração: uma condição marcadapelo alto nível de adaptabilidade, improviso, flexibilidade e acoplamento de recursos pelo entregador, atravessada também pela constante pressão e ansiedade influenciadas pela gamificação.