RISCOS, INCERTEZAS E CENÁRIOS FUTUROS: POR UMA EDUCAÇÃO SOCIOCIENTÍFICA EM UMA SOCIEDADE DE RISCO
Sociedade de Risco; Educação Científica; Questões Sociocientíficas; Cenários Futuros; Mudanças Climáticas.
Compreendemos que a ciência e seu ensino são historicamente sustentados por ideais de certeza, previsibilidade e segurança. No entanto, na modernidade tardia, a ciência enfrenta processos globais urgentes, como mudanças climáticas, pandemias e conflitos, marcados pela complexidade e pela incerteza. Na sociedade de risco, proposta por Ulrich Beck, os sujeitos convivem com medos e inseguranças decorrentes dos próprios avanços científicos e tecnológicos. A expertise tecnocrática torna-se, assim, insuficiente para lidar sozinha com tais problemáticas. O objetivo desta pesquisa foi analisar como estudantes do ensino médio percebem e abordam as incertezas e os cenários futuros, por meio do trabalho pedagógico com Questões Sociocientíficas (QSC) em uma disciplina eletiva de Biologia intitulada “Qual o Futuro da Terra?”. A investigação, de abordagem qualitativa, utilizou a Análise Textual Discursiva (ATD) para examinar as produções escritas e audiovisuais dos estudantes, elaboradas a partir da temática das mudanças climáticas. Os resultados evidenciam que os discentes manifestam uma ampla gama de percepções sobre o futuro, ora marcadas por otimismo, confiança no progresso científico e soluções tecnológicas, ora permeadas por desesperança e críticas aos impactos ambientais e sociais. Observamos também a tendência de atribuir responsabilidades pelos riscos e crises a fatores externos ou históricos, indicando certa distância da percepção de agência individual e coletiva. Tanto no Momento Inicial quanto no Momento Final da disciplina, prevaleceram visões negativas sobre o futuro do planeta, acompanhadas por sentimentos de medo, angústia e incerteza, mas também por desejos de transformação e esperança. As categorias emergentes revelam a complexidade do pensamento juvenil sobre os cenários futuros, destacando a coexistência de fatalismo e criticidade, e reforçam a necessidade de uma educação científica que articule conhecimento, emoção, imaginação e responsabilidade social. Concluímos que trabalhar riscos e futuros por meio das QSC contribui para uma formação sociocientífica capaz de preparar os estudantes para habitar o futuro como sujeitos conscientes, reflexivos e participativos diante dos desafios globais emergentes.