Homem mata a mulher ou mulher é morta pelo marido? Uma análise variacionista das vozes verbais em notícias de feminicídio
Voz passiva. Voz ativa. Feminicídio. Notícia. Sociolinguística Variacionista.
Esta dissertação apresenta uma análise sobre o uso das vozes verbais (voz passiva e voz ativa) em textos jornalísticos. O marco teórico da pesquisa é a proposta laboviana (2008 [1972]) e a Teoria da Mudança Linguística (1968), as quais propõem a análise quantitativa de fenômenos linguísticos variáveis. A autora, enquanto jornalista, percebeu algumas características no que se refere à abordagem linguística do feminicídio em notícias publicadas na imprensa, sobretudo, quanto ao predomínio da voz passiva em textos que narram crimes de violência contra a mulher. A partir dessa hipótese, questionase: qual significado sociodiscursivo e ideológico estaria inerente à voz passiva no contexto jornalístico? Nossos objetivos específicos com esse estudo, são: i) analisar a voz ativa e a voz passiva em matérias sobre feminicídio cujas sentenças apresentem verbos de agressão; ii) avaliar as variáveis linguísticas e sociais que estão condicionando a escolha das vozes verbais e iii) identificar os papéis e os enquadres dos sujeitos posicionados nos textos (vítima e agressor), além dos efeitos das formas de representação. O corpus é composto de 140 notícias de feminicídio, retiradas de 33 portais jornalísticos brasileiros entre os anos 2000 e 2024. Após a coleta dos 376 dados, foi realizada a análise do fenômeno linguístico a partir do programa GoldVarb-X, uma das ferramentas estatísticas da Sociolinguística Variacionista. Para a análise quantitativa, foram codificados 363 dados em três rodadas binárias, após algumas decisões metodológicas as quais serão apresentadas posteriormente. Sete variáveis independentes linguísticas/sociais foram monitoradas: sexo do repórter, veículo, ano de publicação, localização do fenômeno na estrutura da notícia, papéis sintáticos das preposições por e após, verbos e tempo verbal. Os resultados revelaram que os fatores mais significativos e que favoreceram a passiva na rodada de peso relativo foram os veículos g1 e UOL; as fotolegendas, os subtítulos e os lides – com destaque para os textos que compõem as fotografias. Com a variável verbo, foi possível perceber que assassinar é o verbo de agressão que aparece com mais frequência na voz passiva. Os dados também indicaram que a violência contra a mulher é minimizada nos textos com ênfase para o apagamento do agente. Em 63,7% das notícias, há a omissão do autor do crime. No excerto “Noélia tinha relacionamento com vizinho que A MATOU, diz delegada”, é possível verificar a existência de uma estrutura linguística que age discursivamente para justificar a ação agressora pelo fato da vítima ter um relacionamento extraconjugal (van Dijk, 2012 [1992]). Identifica-se ainda uma sexualização feminina nas fotolegendas a partir de representações femininas estereotipadas que não têm qualquer relação com o foco do texto. Por fim, essa pesquisa apontou que as notícias não têm sido utilizadas como ferramenta de conscientização social e coletiva sobre a erradicação da violência de homens contra mulheres. Das 140 matérias analisadas, apenas 5,71% continham informações sobre o Ligue 180, serviço que recebe denúncias de violações contra as mulheres e encaminha o conteúdo dos relatos aos órgãos competentes (Brasil, 2020).