Competências, habilidades e evidências: um olhar da Linguística Formal sobre Exame Nacional do Ensino Médio
avaliação educacional; Enem; Competência; Teoria Gerativa; metalinguagem; ensino de língua portuguesa.
Esta dissertação investiga a relação entre teoria linguística, ensino e avaliação educacional a partir da análise de itens da prova de Linguagens do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Embora o exame seja frequentemente associado à avaliação de habilidades interpretativas em contextos comunicativos, parte-se da hipótese de que a resolução de determinadas questões mobiliza conhecimentos linguísticos estruturais previamente internalizados pelos falantes e posteriormente desenvolvidos na educação formal. Nesse sentido, busca-se investigar em que medida a resolução de determinados itens da prova mobiliza conhecimentos linguísticos previamente internalizados pelos falantes, compreendidos, à luz da Teoria Gerativa, como parte da Competência, ou conhecimentos associados ao ensino formal da língua, vinculados ao que autores como Kato denominam gramática do letrado. O estudo fundamenta-se em contribuições da teoria gerativa, especialmente na noção de Competência proposta por Chomsky, bem como em reflexões sobre ensino de gramática e consciência metalinguística presentes em trabalhos de Lobato, de Kato, de Guerra-Vicente e Pilati, entre outros autores. Metodologicamente, realiza-se uma análise qualitativa de itens selecionados da prova de Linguagens do Enem, considerando as habilidades descritas na Matriz de Referência e os conhecimentos linguísticos mobilizados em sua resolução. Os resultados indicam que a interpretação adequada de determinadas questões depende da ativação de princípios estruturais da língua, tais como relações anafóricas, organização sintática e mecanismos de coesão textual, cuja interpretação pode mobilizar tanto conhecimentos linguísticos previamente internalizados pelos falantes – compreendidos, à luz da tradição gerativista, como parte da Competência e relacionados, em certos casos, a princípios universais da linguagem – quanto conhecimentos ensinados de maneira explícita no contexto escolar. Dessa forma, argumenta-se que a prova de Linguagens do Enem não se limita à interpretação contextual de textos, mas pressupõe, em diversos momentos, o domínio de conhecimentos linguísticos que podem ser descritos à luz da teoria linguística. Ao evidenciar essa relação, o trabalho contribui para o debate sobre o papel da teoria linguística na formação do docente de língua materna e para a compreensão dos conhecimentos efetivamente mobilizados em avaliações educacionais em larga escala.