Intertextualidade e disputa de sentidos: a desinformação sobre a enchente de 2023 no Rio Grande do Sul
Intertextualidade; Disputa de sentidos; Desinformação; Redes sociais
Esta pesquisa investiga o papel da intertextualidade na construção, legitimação, contestação e disputa de sentidos em torno da narrativa desinformativa segundo a qual a abertura das comportas das barragens teria contribuído para o agravamento das enchentes de 2023 no Rio Grande do Sul. A pesquisa fundamenta-se na Linguística Textual, em diálogo com a Análise de Discurso Crítica, e mobiliza contribuições dos estudos da Comunicação, cuja articulação possibilita compreender a desinformação como um fenômeno simultaneamente textual, discursivo e comunicacional. Nessa perspectiva, a intertextualidade é concebida como um princípio constitutivo da textualidade, inseparável dos processos sociocognitivos e sociointeracionais que orientam a produção, a interpretação e a circulação dos sentidos. Assim, a análise articula os pressupostos da Linguística Textual às contribuições de Teun A. van Dijk sobre os modelos sociocognitivos, de modo a compreender como conhecimentos compartilhados, inferências, contextos e memórias discursivas participam da construção das narrativas. Esse referencial é complementado pelas contribuições da Comunicação e da Análise de Discurso Crítica, que possibilitam examinar as dinâmicas de circulação, os processos de legitimação e a disputa de sentidos em ambientes digitais. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada na análise de um corpus constituído por oito textos publicados em plataformas digitais, selecionados por participarem da controvérsia em torno da narrativa da abertura das comportas das barragens. Produzidos por diferentes atores sociais e pertencentes a distintos gêneros discursivos, esses textos configuram uma rede intertextual na qual se constroem, circulam, legitimam e contestam interpretações sobre as causas das enchentes. Os resultados indicam que a intertextualidade desempenha função relevante na constituição dessa rede de discursos, atuando na construção e na transformação dos sentidos em circulação por meio de processos de retomada, recontextualização e ressignificação de discursos anteriores. A análise evidencia ainda que a permanência das narrativas envolve a articulação entre mecanismos textuais, elementos sociocognitivos e dinâmicas comunicacionais, revelando disputas por legitimidade, autoridade interpretativa e definição dos sentidos atribuídos aos acontecimentos. Como contribuição teórica, a pesquisa evidencia a produtividade do diálogo entre Linguística Textual, Análise de Discurso Crítica e Comunicação para a compreensão da desinformação como um fenômeno simultaneamente textual, sociocognitivo, discursivo e comunicacional.