Trajetórias migratórias de mulheres trans venezuelanas em Boa Vista, Roraima: Uma análise discursiva crítica
Migração, mulheres trans venezuelanas, discurso, trajetórias migratórias; abrigamento.
Os movimentos migratórios internacionais têm adquirido crescente relevância diante das transformações produzidas pelas sociedades capitalistas e neoliberais. Em 2024, aproximadamente 120 milhões de pessoas encontravam-se em situação de deslocamento forçado em razão de guerras, fome, violência e violações de direitos humanos. Esses movimentos envolvem não apenas dimensões políticas, econômicas e institucionais, mas também histórias, experiências e necessidades de pessoas que vivenciam os deslocamentos. Entre os fluxos contemporâneos, destaca-se a migração de pessoas venezuelanas na América Latina, que alcançou cerca de 6,1 milhões de pessoas, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (2024). Nesse contexto, grupos como mulheres e populações LGBT encontram-se particularmente vulnerabilizados, embora suas experiências ainda ocupem espaço limitado nos debates sobre mobilidade. Esta pesquisa busca, para além dos discursos institucionais, compreender experiências de pessoas que permanecem, muitas vezes, invisibilizadas nesses processos. O objetivo é investigar e discutir as representações discursivas construídas por mulheres trans venezuelanas sobre suas trajetórias migratórias, em situação de abrigamento, em Boa Vista, Roraima. Trata-se de uma pesquisa etnográfico-discursiva, realizada no Abrigo Pricumã, cujo corpus é constituído por entrevistas, observações, notas de campo, e fotografias. Os Estudos Críticos do Discurso (Chouliaraki; Fairclough, 1999; Wodak; Meyer, 2001; Fairclough, 2003), articulados aos Estudos de Gênero e à perspectiva da interseccionalidade (Bento, 2008; Lugones, 2019; Anzaldúa, 2021; Louro, 2022), fornecem os pressupostos teórico-metodológicos da investigação. Os resultados revelam que, para as participantes, a migração está relacionada a processos de exclusão e violência iniciados no âmbito familiar e atravessados por outras instituições e espaços sociais. Ao narrarem suas trajetórias, as participantes representam a si mesmas e significam seus deslocamentos espaço-temporais, construindo, nas fronteiras, possibilidades de ação e (re)existência. A análise do Abrigo Pricumã como prática particular evidencia, por sua vez, uma paisagem semiótica na qual discursos de cuidado, acolhimento e controle se articulam e são recontextualizados em diferentes elementos semióticos, participando da produção de sentidos sobre a migração e o abrigamento.