Retomada anafo rica do objeto direto de terceira pessoa no portugues brasileiro e no portugues uruguaio de Aceguá
Contato de línguas; bilinguismo; português brasileiro; português uruguaio; objeto nulo.
O objetivo desta dissertação de mestrado é analisar a retomada anafórica no português brasileiro e no português uruguaio, contrastando falantes bilingues e monolingues que vivem em Aceguá, cidade no Rio Grande do Sul, perto da fronteira com o Uruguai. Foi analisado o corpus de entrevistas feitas por Pacheco (2014), além do levantamento bibliográfico e teórico sobre a transitividade, bilinguismo, contato de línguas, sintaxe do objeto nulo em português, em espanhol e outras línguas. Como objetivo secundário, destaca-se a análise tipológica do objeto nulo em diferentes idiomas. O marco teórico da pesquisa é o da Teoria da Variação, proposta por Labov (1972) e a Teoria da Mudança Linguística, desenvolvida por Weinreich, Labov e Herzog (1968). Também buscamos analisar se houve convergência de gramáticas nos bilíngues em espanhol e português. Na análise quantitativa, feita com o auxílio do Goldvarb-X (2005), observou-se que o objeto nulo (52,8%) é a forma mais frequente de retomada, seguida pelo pronome pessoal (27,5%), repetição do sintagma nominal (18,3%) e, por fim, o clítico (1,3%). O resultado estatístico demonstra que, no nível linguístico e social, as variáveis selecionadas, na rodada geral da comunidade, são a função sintática do antecedente, animacidade, especificidade e faixa etária. Em relação à idade, participantes acima de 50 anos tendem a utilizar mais outras retomadas e menos objeto nulo, com pesos relativos de 0,680 e 0,320, respectivamente. Entre participantes de 30 a 50 anos e de 15 a 30 anos, a diferença é mínima, com pesos de 0,580/0,420 e 0,579/0,421, respectivamente. Assim, a principal diferença no uso do objeto nulo ocorre entre participantes acima de 50 anos e aqueles das demais faixas etárias. Na rodada só de uruguaios, as variáveis selecionadas foram a animacidade, com peso de 0,734 para animados e 0,215 para inanimados e a idade, com 0,320 para acima de 50 anos, 0,580 para 15 a 30 anos e 0,579 para de 30 a 50 anos. Na rodada só de brasileiros, foram selecionadas a animacidade, com 0,629 de inanimados e 0,2 de animado e especificidade, com 0,417 de específico e 0,594 de genérico. Na amostra investigada, a animacidade emerge como o principal e mais estável condicionamento do objeto nulo em todas as rodadas, seguida pela especificidade apenas no português brasileiro e na rodada conjunta; a faixa etária apresenta um efeito social relevante, embora mais localizado na rodada do português uruguaio e na rodada conjunta; e a função sintática acrescenta uma dimensão estrutural importante apenas para a rodada conjunta. A porcentagem geral da rodada de brasileiros é de 56,6% de objeto nulo e 33,4% de outras retomadas. Em uruguaios, há 46,6% de objeto nulo e 43,4% de outras retomadas.