Processo de revelação da violência sexual contra crianças e adolescentes: fatores individuais e contextuais associados.
revelação; violência sexual contra crianças e adolescentes; abuso sexual infantil
A violência sexual contra crianças e adolescentes (VSCA) constitui um grave problema de saúde pública, marcado por elevada incidência, invisibilidade social e obstáculos para sua identificação. No Brasil, os registros oficiais revelam predominância de vítimas do sexo feminino e ocorrência majoritária no espaço doméstico, envolvendo agressores conhecidos, o que reforça a complexidade desse fenômeno e o predomínio da “síndrome do segredo”, que dificulta a interrupção do abuso. A revelação, compreendida como um processo gradual, relacional e multidimensional, é a principal via de identificação da violência, ainda que sujeita a barreiras individuais, familiares, socioculturais e institucionais. Este estudo investiga os fatores individuais e contextuais associados ao processo de revelação da VSCA em crianças e adolescentes, por meio de uma revisão integrativa da literatura associada à análise de 275 registros multiprofissionais de atendimentos realizados no Centro Integrado 18 de Maio (DF), em 2024. A etapa qualitativa sistematizou evidências científicas sobre o processo de revelação, enquanto a etapa quantitativa analisou a presença e a distribuição desses fatores nos atendimentos especializados. Os resultados evidenciaram que a revelação é influenciada pela interação entre características individuais — especialmente idade e sexo, com maior concentração de atendimentos envolvendo meninas e crianças em idades mais avançadas da infância e adolescentes — e fatores contextuais, destacando-se as dimensões relacionais e as características do abuso. Observou-se que situações em que o suposto agressor integra o núcleo familiar ou a rede de convivência próxima estão associadas à manutenção do segredo e ao atraso na revelação. Predominam revelações em contextos informais, dirigidas a pessoas de confiança, frequentemente anteriores ao acesso aos serviços especializados. De modo convergente entre literatura e dados empíricos, os achados confirmam que a revelação não constitui um evento pontual, mas um processo gradual, relacional e ecologicamente condicionado, com implicações diretas para a organização da rede de proteção e para a qualificação das práticas institucionais de escuta e atendimento.