UM OLHAR BIOÉTICO À ASSISTÊNCIAS ÀS MULHERES COM DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL NO BRASIL
Doença Trofoblástica Gestacional; Bioética de Intervenção; Bioética Narrativa; Feminismo Antirracista; Vulnerabilidade
A Doença Trofoblástica Gestacional (DTG) é uma condição rara e potencialmente grave, cuja incidência no Brasil é expressivamente superior à de países do Norte global, afetando de modo desproporcional mulheres negras, pobres e residentes em regiões periféricas. Embora apresente altas taxas de cura quando diagnosticada e tratada precocemente, sua trajetória assistencial é marcada por falhas estruturais, violências simbólicas e institucionais e ausência de políticas públicas eficazes. A partir da perspectiva da Bioética de Intervenção, ancorada nos Artigos 8º, 11º e 14º da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (UNESCO, 2005), esta pesquisa analisa os conflitos morais, sociais e institucionais que atravessam o cuidado às mulheres com DTG, articulando as categorias de corporeidade, vulnerabilidade e interseccionalidade como eixos interpretativos. Tratase de uma pesquisa qualitativa e narrativa, que se vale da bioética narrativa como método hermenêutico de análise e reflexão, utilizando narrativas testemunhais construídas a partir de experiências clínicas e institucionais vividas pela pesquisadora em um centro de referência nordestino. As “flores trofoblásticas” — narrativas simbólicas das mulheres acompanhadas — revelam trajetórias permeadas por dor, racismo, desigualdade, negligência e resistência, transformando a experiência corporal da doença em testemunho ético e político. A análise evidencia que as desassistências observadas não são apenas falhas técnicas, mas expressões de escolhas morais e estruturais, reproduzindo desigualdades históricas de gênero, raça e classe no sistema de saúde. Ao mesmo tempo, mostram o potencial transformador de práticas de cuidado pautadas na escuta, no vínculo e na proteção. A tese propõe recomendações concretas voltadas à formação ética e sensível de profissionais, à reorganização dos fluxos de atendimento, à criação de políticas públicas específicas e ao fortalecimento de uma rede de apoio intersetorial que garanta seguimento digno, equitativo e humanizado. Assim, a bioética é apresentada não apenas como campo reflexivo, mas como instrumento de ação transformadora, capaz de intervir nas estruturas que produzem sofrimento evitável e de inspirar políticas comprometidas com a dignidade, a justiça e a proteção da vida das mulheres com DTG.