" ‘É UM TRABALHO DE FORMIGUINHA’: UMA TEORIA FUNDAMENTADA EM DADOS SOBRE O CUIDADO DOS ANIMAIS DE LABORATÓRIO”
"Bioética, ciência em animais de laboratório, bem-estar animal, cuidado,gênero”
“A regulamentação da experimentação no Brasil, em 2008, teve como um de seus resultados a inclusão de médicos-veterinários como corresponsáveis pelos animais de laboratório. Seu papel é assegurar que as operações e as práticas sejam realizadas de acordo com o arcabouço legal e normativo vigente, garantindo a adequação técnica necessária para promover a saúde e o bem-estar animal. Logo, médicos-veterinários são atores chave para estudos sobre o cuidado de animais de laboratório. Este estudo explora as perspectivas de médicos-veterinários que trabalham em instalações de pesquisa, e examina os desafios que encontram para fomentar as culturas do cuidado. Em 2023, foram realizadas entrevistas em profundidade com 24 médicos-veterinários de cada uma das cinco regiões do país. As entrevistas abordaram (i) as histórias de vida, (ii) o trabalho cotidiano nas instalações, (iii) a ética e a cultura do cuidado na prática na visão dos participantes, (iv) e exemplos de melhorias do bem-estar animal. Os participantes expressaram preocupações com (i) lacunas no treinamento de pessoas, (ii) desafios para a manutenção da infraestrutura e equipamentos, (iii) resistência a novos modos de cuidado, e (iv) barreiras na comunicação com pesquisadores. Além disso, os dados evidenciam que as dinâmicas sociais dentro das instituições de ensino e pesquisa criam obstáculos para o desenvolvimento de culturas do cuidado. Essas relações sociais são estruturadas a partir de hierarquias e assimetrias de poder entre professores e pesquisadores, incluindo pesquisadores seniores e de alto nível, e corpo técnico, dos quais muitos são compostos por mulheres. Sob uma ótica mais positiva, apesar dos desafios, os participantes encontraram oportunidades para melhorar o bem-estar animal gradualmente. Esse movimento social expansivo é construído pela metáfora “trabalho de formiguinha”, em referência aos esforços coletivos e individuais para a promoção de mudanças a longo prazo. Desse modo, os resultados indicam que (i) a pesquisa com animais no Brasil encontrase em processo de reforma metodológica, material e social em direção a novas abordagens para o cuidado, e que (ii) as dificuldades enfrentadas por médicas e médicos-veterinários para promover o bem-estar animal constituem um problema bioético, na medida em que compromete a segurança do animal de laboratório. Portanto, recomenda-se a criação de políticas institucionais, que abordem a necessidade de investimentos em infraestrutura, além de atuarem como instrumento para a mediação de conflitos e redução das desigualdades de poder.”