Sonhar futuros plurais como ética aplicada: contribuições afetivas sobre Projeto de Vida nas escolas enquanto um dilema bioético
bioética; projeto de vida; novo ensino médio; colonialidade; subjetivação; alfabetização de futuros.
“Projeto de vida é um componente curricular transversal do Novo Ensino Médio -NEM presente nas escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Fruto das reformas educacionais neoliberais e produtor de muitas controvérsias desde sua intempestiva implementação no governo Temer em 2017, muitas são as mudanças nas realidades escolares desde então. Esta pesquisa parte da experiência no Cerrado (em particular o Distrito Federal), investigando os efeitos dessa disciplina para comunidade escolar na constituição de subjetividades, na ética docente, na gestão das emoções e na produção de imaginários sobre o futuro. Aqui a proposta é compreender como práticas e afetos mobilizados na escola através de conteúdos relacionados ao PV podem, por vezes, deslocar conflitos estruturais para o campo da auto responsabilidade emocional e contribuir para a despolitização do sonhar e do futuro — especialmente entre seu maior público: juventudes negras e periféricas que compõem a educação pública do país e da capital. A metodologia da pesquisa é de abordagem qualitativa, incluindo revisão narrativa de literatura, análise multimodal de materiais, entrevistas com docentes da rede de ensino do DF e Goiás e estudo descritivo sobre a implementação de PV entre os anos de 2021 a 2026 no Distrito Federal com foco no perfil docente. Parte-se da hipótese de que, ao reforçar epistemologias ocidentais, masculinistas, neoliberais e embranquecidas, essa experiência do novo ensino médio revela a presença estruturante das moralidades e as éticas hegemônicas do sistema capitalista produtor de desesperança com foco no ethos ocidental de aprimoramento de si. Nesse contexto, Projeto de Vida, ao propor sobre planejamento do futuro e a regulação das emoções, parece operar como uma tecnologia formativa de subjetividades, capturando sonhos dentro de lógicas normativas que podem indicar a medicalização do sofrimento e da vida, individualizar as experiências e restringir as imagens e horizontes de futuro. A pesquisa busca propor ao campo da Bioética, comprometida com o enfrentamento às iniquidades, o reflorestamento dos imaginários como um gesto ético, político, pedagógico e, portanto, necessariamente bioético, a partir da noção do sonho como ética aplicada, qualificando o debate sobre alfabetização de futuros a partir da experiência com Projeto de Vida nas escolas. ”