Não-visto, não dito: Contranarrativas e contravisualidades em exposições de arte no Brasil (2016-2020)
Contravisualidade; Exposições, Decolonialidade
A tese analisa exposições de arte realizadas no Brasil entre 2016 e 2020 que se assumem como dispositivos de contranarrativa histórica e de contravisualidade frente a um imaginário nacional hegemônico, de matriz colonial e eurocêntrica. Parte-se do diagnóstico de uma crise de representação no campo imagético, estético e político brasileiro, em que mitos como o da democracia racial, a miscigenação harmoniosa e a cordialidade operam como mecanismos de apagamento de conflitos e violências estruturais. Nesse cenário, a pesquisa investiga como determinadas curadorias e obras tensionam narrativas oficiais, abrem fissuras em consensos sedimentados e produzem outras visualidades para sujeitos historicamente colocados à margem – populações negras, indígenas, povos amazônicos, nordestinos, camponeses. Quatro exposições são estudadas em profundidade: Conflitos: fotografia e violência política no Brasil, 1889–1964 (Instituto Moreira Salles); Histórias Afro-Atlânticas (MASP/Instituto Tomie Ohtake); Caravana Museu do Homem do Nordeste, de Jonathas de Andrade (MAM-Rio e Sesc-PE); e A Queda do Céu (CAIXA Cultural Brasília). O marco teórico combina textos de curadores das mostras com estudos decoloniais latino-americanos como Aníbal Quijano, Ramón Grosfoguel, Nelson Maldonado-Torres, Joaze Bernardino-Costa e Ynaê dos Santos com autores dos estudos culturais, antropologia e da cultura visual como Stuart Hall, Nicholas Mirzoeff, Lilia Moritz Schwarcz, Jacques Rancière, Michel Foucault, Achille Mbembe, Françoise Vergès e Ariella Aïsha Azoulay. Dialoga ainda com a sociologia e a psicanálise, com contribuições de Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Rita Segato e Suely Rolnik. A pesquisa articula a análise de exposições, obras e documentos históricos a um mapeamento das condições de produção e circulação dessas mostras, em especial seus mecanismos de fomento e os ataques à cultura sob Temer e Bolsonaro. A ideia de colonialidade do poder orienta a compreensão de continuidades entre o período colonial, a escravidão, formação do Estado-nação e o presente. Com Mirzoeff, a tese mobiliza a noção de visualidade como prática que classifica, separa e estetiza para naturalizar a autoridade, e de contravisualidade como conjunto de gestos – imagéticos e políticos – que recusam esse 8 monopólio do ver e do narrar, reivindicando o “direito a olhar”, movimento do qual as iniciativas de exposição aqui estudadas parecem participar.