O Teatro como Prática da Liberdade: memórias do Teatro do Oprimido no Vale do
Aço/MG e suas reverberações em corpos insurgentes
Teatro do Oprimido; Memória; Pedagogias emancipatórias; Vale do Aço; Augusto Boal
Esta tese é fruto de um processo de investigação da experiência do Teatro do Oprimido
(TO) na Região Metropolitana do Vale do Aço (RMVA) durante a década de 1990 —
período marcado pela redemocratização do país, pela efervescência dos movimentos
sociais e pela emergência de políticas públicas voltadas à educação e à cultura. A pesquisa
parte de uma perspectiva metodológica que se estrutura como uma bricolagem,
integrando elementos da autoetnografia, da etnografia e da prática artística. O corpo da
pesquisadora, mulher negra, periférica, marcado por experiências coletivas entre arte,
educação, militância política cultural e herdeiro da potência ancestral que resiste e
(re)cria, é compreendido como território de memória, vivência e resistência, assim como
os corpos dos/as sujeitos/as que participaram das experiências com o TO e que, assim
como a pesquisadora, seguem performando e praticando o Teatro do Oprimido. A
metodologia adota como eixo estruturante a metáfora das três cabaças, inspirada nos
ensinamentos de Exu conforme narrados por Luiz Rufino (2018), a fim de aproximar das
encruzilhadas e os cruzamentos entre memória, práticas pedagógicas e processos
artísticos, onde caminhos se confundem e se reinventam . A pesquisa busca compreender
de que maneira o Teatro do Oprimido atuou como dispositivo de formação crítica,
consciência política e resistência cultural no contexto das gestões populares nos
municípios de Coronel Fabriciano, Ipatinga e Timóteo, assim como seus efeitos e
ressonâncias na constituição de pedagogias emancipatórias e de uma estética da
resistência. O estudo se ancora em referenciais teóricos de autoras e autores que
dialogam com epistemologias negras, decoloniais e insurgentes, como Augusto Boal, Leda
Maria Martins, Sueli Carneiro, bell hooks, Nilma Lino Gomes, Paulo Freire, Luiz Rufino,
entre outros/as. A partir da escuta sensível de memórias individuais e coletivas, da análise
documental, de entrevistas narrativas e da articulação entre ancestralidade,
territorialidade e corporeidade, a pesquisa reivindica o Teatro do Oprimido como
ferramenta política e poética. Trata-se de um gesto de resgate de vozes historicamente
marginalizadas — especialmente de mulheres — e de reinscrição de suas contribuições,
ao revisitar o passado como presença viva, capaz de moldar futuros possíveis.