MULTIMORBIDADE CARDIOMETABÓLICA E EXPERIÊNCIAS DE CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE ENTRE ADULTOS BRASILEIROS COM 50 ANOS E MAIS (ELSI-BRASIL)
Multimorbidade. Multimorbidade cardiometabólica. Atenção Primária à Saúde. Experiência do paciente. Idosos. ELSI-Brasil.
Introdução: O envelhecimento populacional e o crescimento das doenças crônicas não transmissíveis têm elevado a prevalência da multimorbidade, especialmente do cluster cardiometabólico, entre adultos brasileiros com 50 anos e mais. A experiência do cuidado — entendida como a percepção do usuário sobre os encontros com os serviços de saúde — é reconhecida como um dos pilares da qualidade assistencial, ao lado da eficácia clínica e da segurança do paciente. Contudo, estudos que articulem multimorbidade cardiometabólica e experiência do cuidado na Atenção Primária à Saúde em base populacional representativa permanecem escassos no contexto brasileiro. Objetivo: Analisar as experiências nos serviços da Atenção Primária à Saúde conforme a ocorrência de multimorbidade cardiometabólica em brasileiros com 50 anos e mais, a partir dos dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil). Métodos: Estudo observacional transversal com 9.949 participantes da segunda onda do ELSI-Brasil (2019–2021). A multimorbidade cardiometabólica foi definida como a presença simultânea de duas ou mais entre as seguintes condições autorreferidas: hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, dislipidemia, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. A experiência do cuidado foi mensurada por instrumento validado de 12 questões autorreferidas organizadas em quatro domínios: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, comunicação e coordenação do cuidado. As associações foram estimadas por regressão de Poisson com ajuste para variáveis sociodemográficas, de saúde e de utilização de serviços, com análise estratificada pela cobertura da Estratégia Saúde da Família. Resultados: A prevalência de multimorbidade cardiometabólica foi de 25,5%, com gradiente crescente conforme a idade e associação inversa com escolaridade. Pessoas com multimorbidade cardiometabólica apresentaram experiências significativamente mais positivas nos domínios de longitudinalidade (índice médio 2,53 versus 2,34; RP ajustada = 1,22; IC95% 1,12–1,33; p < 0,001) e, em menor magnitude, de comunicação (índice médio 2,68 versus 2,58; RP ajustada = 1,10; IC95% 1,00–1,20; p = 0,041). Nenhuma diferença estatisticamente significativa foi identificada nos domínios de acesso de primeiro contato e coordenação do cuidado. Na análise estratificada por cobertura da Estratégia Saúde da Família, os diferenciais observados na longitudinalidade e na comunicação deixaram de ser estatisticamente significativos. Conclusão: A multimorbidade cardiometabólica associou-se a experiências mais positivas de longitudinalidade e comunicação na Atenção Primária à Saúde, padrão consistente com a intensificação do contato longitudinal imposta pela natureza das condições cardiometabólicas. O efeito equalizador da Estratégia Saúde da Família — onde pessoas com e sem multimorbidade cardiometabólica apresentaram experiências de longitudinalidade igualmente elevadas — levanta a questão sobre se o modelo responde de forma proporcional à maior complexidade clínica desse grupo, ou se trata de forma igual indivíduos com necessidades objetivamente distintas. A ausência de diferenciação no acesso e na coordenação aponta para lacunas que requerem atenção no cuidado a esse grupo populacional.