Avaliação da influência da manipulação da Wolbachia em Aedes albopictus de Portugal e do Brasil como uma nova abordagem para o controle de doenças transmitidas por vetores.
Aedes albopictus; Wolbachia; resistência a inseticidas; competência vetorial; controle vetorial.
O mosquito Aedes albopictus é um vetor competente para diversos arbovírus de relevância em saúde pública, incluindo os vírus chikungunya (CHIKV), Zika (ZIKV) e dengue (DENV), e encontra-se atualmente em expansão geográfica em Portugal e já consolidado no Brasil. Frente às limitações das estratégias convencionais de controle vetorial e do crescente risco de resistência a inseticidas, o uso do endossimbionte Wolbachia, naturalmente presente em Ae. albopictus nas linhagens wAlbA e wAlbB, é apontado como abordagem promissora, por sua capacidade de bloquear a transmissão viral e modular aspectos fisiológicos do hospedeiro. Esta tese tem como objetivo avaliar a influência da manipulação de Wolbachia sobre a fisiologia de Ae. albopictus, com foco nos mecanismos de resistência a inseticidas e na competência vetorial para arbovírus, em populações de Portugal (Lisboa, Penafiel e Olhão) e do Brasil (Recife e Codó/Maranhão). Foram analisados 532 mosquitos (344 de Portugal e 188 do Brasil) por PCR multiplex para genotipagem de Wolbachia, revelando prevalência global de 87,22%, com predomínio de coinfecção por wAlbA e wAlbB (80,83%) e variação entre localidades. A tipagem multilocus de sequências (MLST), realizada em 3 indivíduos de Portugal, apresentou correspondências parciais em alguns loci, sobretudo coxA, permanecendo inconclusiva. Novos ensaios foram realizados com mais 12 mosquitos de Portugal e os dados estão sendo analisados. A análise mitocondrial das populações portuguesas do gene COI, com 83 sequências, identificou oito haplótipos, com predomínio do haplótipo H1. A genotipagem das mutações kdr V1016G e F1534C em 152 fêmeas das populações portuguesas não detectou alelos mutantes, sugerindo baixa probabilidade de resistência mediada pelo sítio-alvo, a ser confirmada por bioensaios fenotípicos. Tentativas preliminares de sequenciamento do genoma completo (WGS) por Nanopore, a partir de isolinhas de Olhão e do Jardim Botânico de Lisboa, apresentaram rendimento insuficiente para a caracterização genômica de Wolbachia, embora tenham permitido a obtenção dos mitogenomas completos do hospedeiro. O sequenciamento WGS será repetido, incluindo também amostras de Recife. As próximas etapas do trabalho incluem o estabelecimento de colônias livres de Wolbachia por tratamento com tetraciclina de Portugal e do Recife. Com estas populações serão realizados bioensaios fenotípicos de resistência a inseticidas, análise de expressão gênica (qPCR e RNA-seq) e ensaios de competência vetorial para CHIKV e ZIKV. Espera-se que os resultados contribuam para uma compreensão integrada da relação Wolbachia-hospedeiro-vetor em dois contextos epidemiológicos distintos, fomentando o desenvolvimento de estratégias inovadoras de controle de arboviroses.