Uma Jovem Criança Centenária: as vicissitudes do Budismo no Brasil
etnografia, budismo tibetano, budismo no brasil, religião, rituais, psicologia cognitivo comportamental, mindfulness.
A presente tese é fruto de uma etnografia realizada junto a duas organizações budistas
distintas, mas pertencentes à linhagem tibetana no Brasil. Partiu-se da hipótese de que o
encontro entre o budismo tibetano e o campo religioso brasileiro, marcado pelo
sincretismo e pela flexibilização da pertença religiosa, poderia favorecer o surgimento de
uma forma de “budismo brasileiro”. Para analisar essa possibilidade, realizo uma análise
geral acerca da situação do budismo no país, articulado à análise do contexto religioso
nacional, no qual a circulação entre tradições, a bricolagem de crenças e a centralidade
da experiência individual configuram modos específicos de vivência religiosa.
Ao longo da tese, são discutidos conceitos fundamentais do budismo tibetano e
examinado o modo como são absorvidos por indivíduos e instituições em um processo de
hibridação. Tal processo produz sujeitos híbridos (praticantes que combinam referências
tibetanas com repertórios religiosos brasileiros) e instituições híbridas (que incorporam
elementos do campo religioso nacional em suas práticas, discursos e formas de pertença).
Por fim, em registro ensaístico, é empreendida uma incursão sobre como essa hibridação
da religião oriental também afeta a ciência, em especial a psicologia, tensionando
fronteiras entre espiritualidade, terapia e produção de conhecimento.
No primeiro capítulo, analisa-se a chegada do budismo ao Brasil por diferentes vias:
grupos de estudo ligados à teosofia, o budismo étnico associado à imigração japonesa e,
posteriormente, a influência da contracultura, que impulsiona grupos a buscarem contato
direto com mestres e linhagens budistas. Esse percurso histórico permite compreender
como o budismo vai sendo gradualmente ressignificado, adquirindo contornos “modernos”
e “psicológicos”, com forte ênfase em práticas de meditação e autoconhecimento.
O segundo capítulo aborda um conceito fundamental do budismo: o sofrimento (dukkha).
Discute-se como, de maneira cosmológica, a compreensão do sofrimento, de suas causas
e de sua cessação sustenta as práticas de meditação e o caminho em direção à iluminação.
Explora-se, ainda, como essas formulações doutrinárias são mobilizadas no contexto
brasileiro, oferecendo chaves específicas para lidar com a finitude, a dor e a
transformação pessoal.
No terceiro capítulo, é desenvolvida a noção de “psicologia budista”, entendida como
resultado de um processo de tradução dos conceitos religiosos para termos e categorias
compreensíveis ao público ocidental. Analisa-se de que modo ideias como karma, aflições
mentais e ignorância são aproximadas de noções como trauma, neuroses e padrões de
comportamento, configurando um vocabulário híbrido que insere o budismo no campo
terapêutico.
O quarto capítulo discute, a partir dos ensinamentos e práticas observados em campo, a
possibilidade de formação de um budismo híbrido, ou budismo brasileiro, que integra
elementos tibetanos a lógicas locais de sincretismo e circulação religiosa. Por fim, o
quinto capítulo, em tom ensaístico, explora outra forma de hibridação: o encontro entre a
psicologia ocidental e o budismo na constituição do mindfulness e da psicologia
cognitivo-comportamental baseada em mindfulness, vistos como produtos de uma mesma
dinâmica de tradução, apropriação e recomposição de saberes.