Quando Ninguém governa o Ministério da Educação
antropologia; Estado; amadorismo; Administração Pública; Ministério
da Educação; burocracia; etnografia; gestão democrática; diversidade; burocracia
privada.
Esta tese apresenta os resultados de uma pesquisa etnográfica — realizada no Ministério
da Educação (MEC) do Brasil sob a perspectiva de um antropólogo servidor público, ou
servidor público antropólogo, que trabalha em seu campo — a qual investiga o cotidiano
administrativo e as relações de poder numa burocracia pública marcada pela
descontinuidade perpétua de seus projetos e pelo entristecimento de suas equipes. A
tese argumenta que esse quadro decorre de o Ministério ser, em última instância,
governado por “Ninguém”, uma força estatal abstrata, impessoal e irresponsável que se
sobrepõe à agência dos indivíduos, gerando frustração naqueles que tentam
implementar políticas educacionais. Ao longo da narrativa, o autor analisa transições
históricas e políticas no órgão. Destaca a passagem de um período pautado pela gestão
democrática e participativa para uma era dominada por lógicas gerenciais,
padronizações estatísticas baseadas em resultados e pela crescente e decisiva influência
de uma burocracia privada a serviço do empresariado atuando por dentro do MEC.
Também dialoga com metodologias e teorias antropológicas, a partir da proposição de
uma antropologia amadora, para refletir sobre a Administração Pública como campo de
pesquisa. O estudo problematiza a dita essencialização do Estado e explora as tensões
entre forças centrífugas (movimentos sociais, diversidade, participação democrática
institucional) e forças centrípetas (centralização, verticalização, homogeneização,
enxugamento de futuros) na formulação das políticas públicas. Por fim, evidencia como
o ocultismo, o autoritarismo e a impessoalidade da lógica-Estado afetam a vida de cada
qual enredada nas engrenagens burocráticas.