MANIFESTAÇÕES OCULARES EM PACIENTES COM TESTAGEM POSITIVA PARA SÍFILIS ATENDIDOS EM UM HOSPITAL TERCIÁRIO DO DISTRITO FEDERAL NO PERÍODO DE 2020 A 2022
Sífilis ocular. Neurossífilis. Uveíte. Coinfecção por HIV. Treponema pallidum. Epidemiologia.
Introdução: A sífilis, infecção causada pelo Treponema pallidum, permanece um desafio significativo de saúde publica e pode acometer diversos órgãos, incluindo o sistema ocular, cuja manifestação e considerada forma de neurossífilis. O aumento da incidência de sífilis no Brasil, associado ao atraso diagnostico e a diversidade de apresentações clinicas, reforça a necessidade de melhor caracterização epidemiológica da sífilis ocular em cenários de alta complexidade hospitalar. Objetivo: Descrever as características clinicas, epidemiológicas, laboratoriais e terapêuticas de uma coorte de pacientes com sífilis ocular atendidos em um hospital terciário do Distrito Federal entre 2020 e 2022. Materiais e métodos: Realizou-se um estudo retrospectivo, descritivo, do tipo coorte histórica, incluindo pacientes ≥18 anos com testes treponêmicos reagentes, manifestações oculares confirmadas pela oftalmologia e necessidade de internação para tratamento. Foram analisados dados sociodemográficos, clínicos, laboratoriais (incluindo LCR), regime terapêutico, evolução clínica e resposta sorológica. Resultados: Foram incluídos 55 pacientes, majoritariamente do sexo masculino (74,5%), com média de idade de 42,2 anos. Borramento visual foi o sintoma mais frequente (92,7%). As lesões oculares mais comuns foram uveíte anterior (37,8%), uveíte posterior (28,9%), edema de papila (22,2%) e panuveíte (20%). A maioria dos pacientes (96,4%) apresentou início dos sintomas há mais de quatro semanas. A coinfecção pelo HIV ocorreu em 58,2%, dos quais 65,6% apresentaram carga viral >1000 copias/mL e 56,3% tinham CD4 <200 células/mm3. Apesar de 82,2% apresentarem VDRL de liquor não reagente, alterações citológicas e bioquímicas compatíveis com neurossífilis foram frequentes. A ceftriaxona foi o antibiótico mais utilizado (56,4%), devido a indisponibilidade de penicilina G cristalina em parte do período analisado. Após três meses, 59,5% dos pacientes apresentaram queda ≥2 diluições no VDRL, sendo essa resposta mais expressiva entre aqueles tratados com penicilina cristalina (86,4%). Conclusão: A sífilis ocular apresentou-se predominantemente em estágio tardio, com elevada frequência de coinfecção pelo HIV e ampla variedade de manifestações oculares. O atraso diagnostico e a heterogeneidade terapêutica reforçam a necessidade de protocolos assistenciais específicos, rastreamento direcionado e garantia de acesso a penicilina cristalina. A maioria dos pacientes apresentou boa resposta clinica e sorológica ao tratamento, evidenciando que o reconhecimento precoce e a condução adequada podem prevenir sequelas oftalmológicas graves.