FEBRE CHIKUNGUNYA NO MUNDO: ÓBITOS, CONDIÇÕES CRÔNICAS E IMPACTO SOCIOECONÔMICO – UM ESTUDO DE REVISÃO SISTEMÁTICA
Palavras-chave: Febre de Chikungunya; Revisão Sistemática; Fase crônica; Prevalência. Impacto social e econômico.
Introdução: O vírus chikungunya (CHIKV), um alfavírus da família Togaviridae, é transmitido aos seres humanos por mosquitos do gênero Aedes, principalmente Aedes aegypti e Aedes albopictus, e causa a febre de Chikungunya (CHIKF) em humanos, ocorrendo predominantemente em regiões tropicais e subtropicais ao redor do mundo. Apesar do crescente aumento da morbimortalidade e das consequências e sequelas a longo prazo da CHIKF, a doença ainda tem status de negligenciada e estudos que abordam o comportamento epidemiológico e os impactos socioeconômicos são raros. Objetivo: Investigar as manifestações clínicas apresentadas por indivíduos com evolução crônica ou óbito em decorrência da CHIKF, bem como o impacto socioeconômico da doença em todo o mundo. Método: Estudo composto por duas revisões sistemáticas da literatura, realizadas a partir de buscas abrangentes de artigos científicos publicados até 2024, indexados nas bases de dados LILACS, EMBASE e PubMed, bem como da literatura cinzenta, por meio de portais brasileiros de teses e dissertações. Foram incluídos trabalhos publicados nos idiomas inglês, espanhol, francês e português, sem restrição quanto ao ano de publicação, que estudaram populações diagnosticadas com CHIKF ou em risco de infecção, com abrangência local, nacional ou internacional. Os processos de seleção das publicações, extração dos dados e análise de qualidade metodológica foram realizados por dois revisores independentes, e um terceiro revisor foi consultado para resolução de divergências. A qualidade metodológica dos estudos incluídos nas duas revisões sistemáticas foi avaliada por meio de diferentes ferramentas e classificada como alta, moderada a alta, moderada a baixa ou baixa. Resultados: Os achados são apresentados em dois artigos, a saber: (i) o primeiro apresenta e discute as principais manifestações clínicas na fase crônica e óbitos associados à CHIKF no mundo; e (ii) o segundo aborda o impacto socioeconômico da CHIKF. No primeiro artigo, as buscas nas bases de dados e literatura cinzenta resultaram em 4.027 registros, dos quais 3.311 foram avaliados em relação ao título e resumo, após remoção das duplicatas. Desses registros, 2.550 foram excluídos e, dos estudos remanescentes (n= 761), 724 foram avaliados quanto à elegibilidade. Ao final, 169 estudos foram incluídos, das quais 76,9% foram publicados entre 2016-2024. A Região das Américas (AMR) foi responsável por 58,6% das publicações incluídas. Brasil (38%), França (Ilha de Reunião) (12%), Índia (9%) e Colômbia (7%) apresentaram o maior percentual de publicações. Estudos observacionais, do tipo transversal representaram 56,7% (55/97), seguido de estudos de coorte (88,9%; 64/72). Do total de estudos incluídos, 63,3% abordaram manifestações clínicas da fase crônica, 30,2% relataram desfechos fatais. e 6,5% relataram ambos os desfechos A evolução para a fase crônica variou entre 3% e 83%. Artralgia crônica, artrite persistente, rigidez matinal, tenossinovite, entesite e bursite foram os sintomas musculoesqueléticos mais associados à cronicidade da CHIKF. As articulações mais afetadas foram joelhos, punhos, tornozelos e mãos. A persistência dos sintomas por mais de um ano foi frequente, e alguns estudos reportaram sequelas até oito anos após a infecção. Impactos psicossociais significativos, como fadiga crônica, ansiedade, depressão e prejuízo na funcionalidade e na qualidade de vida também foram reportados. Idosos apresentaram maior risco de evolução crônica e gravidade dos sintomas, enquanto, entre crianças e neonatos, prevaleceram sequelas neurológicas e atrasos no desenvolvimento neurocognitivo. O coeficiente de letalidade variou de 0,1% a 1,4% entre os estudos, com desfechos fatais associados principalmente a comorbidades, idade avançada e formas graves da infecção. No segundo artigo, as buscas nas bases de dados e literatura cinzenta resultaram em 1.458 registros, dos quais 1.242 foram avaliados em relação ao título e resumo, após remoção das duplicatas. Nessa triagem, 1.173 registros foram excluídos e, dos estudos remanescentes (n= 69), 67 foram avaliados quanto à elegibilidade. Ao final, 43 estudos foram incluídos, publicados ao longo de três décadas (2009 a 2023). Até 2013, os estudos foram originários da Ásia e África, passando a se concentrar na América do Sul a partir de 2015. A maioria dessas publicações é oriunda de países classificados em renda média-baixa (Índia) ou média-alta (Brasil, Colômbia e México). Observa-se maior atuação de sistemas de saúde públicos, com modelos bastante diversos. Estudos de custo e custo-desfechos em saúde foram os mais frequentes. Com base na abordagem analítica aplicada, as publicações foram classificadas da seguinte forma: estudos de custo (n=25), incluindo custo da doença (n=18) e custo de programas (n=6); estudos sobre a carga da doença (n=10); estudos de custo-desfecho (n=4), incluindo custo-efetividade (n=3) e custo-utilidade (n=1); e estudos sobre qualidade de vida (n=15). Os custos diretos totais relatados associados à CHIKF variaram de US$ 3,5 milhões (Ilhas Virgens Americanas, 2014-2015) a US$ 83,6 bilhões (Região das Américas, 2013-2015). Os custos médicos diretos variaram de US$ 308,94 (Tamil Nadu, Índia, 2006) a US$ 33,7 milhões (Ilha da Reunião, 2005–2006). Os custos dos programas de controle de vetores variaram de US$ 888.000 por ano (Grécia, 2013–2017) a US$ 466 milhões (Brasil, 2016). Os anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) estimados por 100.000 habitantes variaram de 4,53 (Índia, 2006) a 2.432 (Região das Américas, 2013-2015). Estudos de qualidade de vida demonstraram declínios substanciais em vários domínios, indicando comprometimento funcional significativo devido à CHIKF. Conclusões: Os achados reforçam a compreensão da CHIKF como uma doença com expressiva proporção de casos evoluindo para forma crônica e óbito, com sérios impactos clínicos e econômicos ao longo da vida do indivíduo. Em diferentes dimensões, para além da saúde, gera absenteísmo, perdas econômicas e de anos de vida. As consequências da doença afetam os sistemas de saúde e as economias, nacional e local, a depender das dimensões dos surtos e epidemias. Verifica-se a necessidade de vigilância contínua, manejo clínico adequado e acompanhamento multidisciplinar de pacientes com sintomas persistentes, além de políticas públicas voltadas para mitigação das consequências a longo prazo da doença. Destaca-se, ainda, a importância de estudos voltados à estimativa do custo da doença e da carga associada, incluindo custos diretos em saúde e despesas custeadas pelos pacientes e suas famílias, como gastos com repelentes e inseticidas