Índice municipal de sustentabilidade dos sistemas alimentares brasileiros
“ indicador composto; sustentabilidade; governança municipal; políticas públicas; sistemas alimentares. ”
“ O debate sobre a sustentabilidade dos sistemas alimentares tem se intensificado nas últimas décadas, impulsionado pela necessidade de conciliar segurança alimentar e nutricional com a conservação ambiental e a equidade social. Entretanto, ainda são escassas as ferramentas analíticas capazes de diagnosticar, acompanhar e avaliar a sustentabilidade dos sistemas alimentares em nível local, especialmente no Sul Global. Essa tese teve como objetivo estimar a sustentabilidade dos sistemas alimentares municipais brasileiros por meio do desenvolvimento, validação e aplicação de um índice construído coletivamente com métodos robustos. Para tanto, foram definidos quatro objetivos específicos: 1) mapear ferramentas analíticas, referenciais teóricos e metodológicos e principais métricas utilizadas na análise de sistemas alimentares; 2) desenvolver, de forma participativa, um modelo conceitual de sustentabilidade dos sistemas alimentares municipais; 3) validar empiricamente o modelo analítico; e 4) classificar os municípios brasileiros segundo o grau de sustentabilidade de seus sistemas alimentares. O estudo ecológico e empírico foi desenvolvimento com métodos mistos e abordagem participativa, a partir de dados secundários extraídos de bases públicas de abrangência nacional, com predominância do período de 2017 a 2021. As etapas envolveram oficinas participativas e painel tipo Delphi com diferentes stakeholders – representantes de organizações científicas (55%), sociedade civil (20%), órgãos governamentais (10%), lideranças tradicionais (10%) e instâncias legislativas (5%) – além de análises estatísticas multivariadas: análise de componentes principais, modelagem de equações estruturais por mínimos quadrados parciais, análise de cluster, correlações e validações de concorrência e convergência. O índice desenvolvido, denominado Índice Municipal de Sustentabilidade dos Sistemas Alimentares (IMuSSA), integra 30 indicadores distribuídos nos domínios de infraestrutura; produção, abastecimento e distribuição; ambientes alimentares; e resultados. O modelo apresentou poder preditivo moderado, demonstrando parcimônia e consistência conceitual. Os resultados evidenciaram desigualdades regionais marcantes: municípios do Sul apresentaram melhor desempenho no domínio estrutural (determinantes de infraestrutura e de apoio produtivo), enquanto os do Nordeste se destacaram no domínio de atividades (práticas sustentáveis de produção, abastecimento e distribuição de alimentos). A análise de clusters revelou quatro perfis predominantes de sistemas alimentares municipais, refletindo tensões internas e trade-offs entre determinantes estruturais e resultados. A pesquisa confirma a complexidade da sustentabilidade como conceito em disputa e evidencia o potencial das análises integradas e participativas para fortalecer a governança local e orientar políticas públicas. O IMuSSA representa uma contribuição metodológica e prática ao oferecer parâmetros objetivos e comparáveis para o acompanhamento da sustentabilidade dos sistemas alimentares no Brasil. Seus resultados podem subsidiar ações governamentais, apoiar o advocacy de organizações da sociedade civil e promover o intercâmbio de boas práticas regionais, reforçando o compromisso nacional com a Agenda 2030 e o direito humano à alimentação adequada.”