EFEITOS DA LIRAGLUTIDA, UM ANÁLOGO DE GLP-1, NA RESPOSTA FEBRIL: MODULAÇÃO NEUROINFLAMATÓRIA DEPENDENTE DO SEXO
Prostaglandina E2, interleucina-6, serotonina, hipotálamo, lipopolissacarídeo e antipirético.
A termorregulação é essencial para a sobrevivência, sendo a área pré-óptica do hipotálamo responsável por integrar sinais periféricos e manter a temperatura corporal central. Embora a febre potencialize as respostas imunes, a hipertermia excessiva pode causar danos celulares. Estudos anteriores mostraram que o antagonismo central do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) intensifica a febre induzida por lipopolissacarídeo (LPS), sugerindo um papel da sinalização do GLP-1 na regulação da temperatura. No entanto, os efeitos diretos dos agonistas do receptor de GLP-1 sobre a febre permaneciam inexplorados. Este estudo investigou os efeitos da liraglutida (LIRA), um análogo do GLP-1 utilizado no tratamento do diabetes e da obesidade, sobre a regulação da temperatura e a febre em ratos, com foco em mecanismos dependentes do sexo. Ratos Wistar machos e fêmeas receberam LPS por via intraperitoneal para induzir febre, seguido de tratamento com LIRA (0,3 mg/kg, i.p.) uma hora depois. A temperatura corporal foi monitorada por até seis horas após a injeção de LPS. A LIRA reduziu a temperatura corporal em ratos eutérmicos e febris de ambos os sexos. O LPS aumentou a concentração de prostaglandina (PG)E₂ em ambos os sexos, sendo o aumento nos machos cerca de duas vezes maior do que nas fêmeas. O tratamento com LIRA reduziu os níveis de PGE₂ em machos desafiados com LPS (62%, p<0,01), mas não teve efeito significativo nas fêmeas. O LPS elevou os níveis de interleucina (IL)-6 em ambos os sexos, enquanto a LIRA reduziu a IL-6 apenas em fêmeas (45%, p<0,05). Nos machos, o LPS reduziu os níveis de serotonina (5-HT) hipotalâmica, e a LIRA diminuiu ainda mais a 5-HT em animais tratados com salina. Nas fêmeas, a LIRA aumentou os níveis de 5-HT (84%, p<0,01) em animais desafiados com LPS. Além disso, a LIRA apresentou efeitos específicos por sexo na fosforilação da JNK hipotalâmica, aumentando sua ativação em machos tratados com LPS e reduzindo-a em fêmeas submetidas ao mesmo tratamento. Em conjunto, esses resultados demonstram que a LIRA possui propriedades antipiréticas mediadas por mecanismos distintos e específicos ao sexo. Nos machos, a redução da temperatura corporal está associada à diminuição da PGE₂ hipotalâmica, enquanto nas fêmeas os efeitos antipiréticos parecem estar relacionados à redução da IL-6, à menor fosforilação da JNK e ao aumento da 5-HT. Esses achados revelam vias termorregulatórias mediadas pelo receptor de GLP-1 com dimorfismo sexual durante a inflamação. No entanto, as relações causais entre as alterações moleculares observadas e a regulação da temperatura ainda requerem investigação adicional, especialmente para determinar se essas alterações representam mecanismos primários ou consequências secundárias da modulação térmica. Estudos futuros devem explorar o significado funcional da aparente divergência nas respostas serotoninérgicas entre os sexos.