Efeitos sexo-dependentes da tirzepatida sobre febre, inflamação e estresse oxidativo induzidos por LPS em ratos
Tirzepatida; Febre, Antipirese; Lipopolissacarídeo; Prostaglandina E₂; Estresse oxidativo; Dimorfismo sexual.
A tirzepatida (TZP) é um agonista duplo dos receptores de GLP-1 e GIP aprovado para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2 e obesidade, mas que também apresenta efeitos metabólicos adicionais, incluindo potencial ação anti-inflamatória e antioxidante. Estudos recentes indicam que agonistas de GLP-1 podem modular a resposta febril e a inflamação sistêmica. Contudo, pouco se sabe sobre o impacto da TZP em modelos de febre induzida por lipopolissacarídeo (LPS), especialmente quanto à sua ação no sistema nervoso central e em tecidos periféricos associados à termorregulação e ao estresse oxidativo. Este estudo teve como objetivo avaliar os efeitos da tirzepatida sobre a temperatura corporal (TC), a produção de prostaglandina E₂ (PGE₂) e serotonina (5-HT) no hipotálamo, os níveis séricos de interleucina-10 (IL-10), e a formação de espécies reativas de oxigênio (ERO) no soro e no tecido adiposo marrom (TAM) de ratos Wistar machos e fêmeas submetidos à inflamação sistêmica induzida por LPS. Os animais receberam TZP (1 mg/kg, i.p.) 1 hora antes da administração de LPS (50 µg/kg, i.p.) ou do veículo. A temperatura corporal foi monitorada continuamente por meio de registradores de temperatura implantados intraperitonealmente, e os tecidos foram coletados 5 horas após a administração de LPS para análises bioquímicas. Os resultados demonstraram que a TZP atenuou significativamente a elevação da temperatura corporal induzida por LPS em ambos os sexos, com efeito mais pronunciado nas fêmeas. Em ratos machos, observou-se aumento da PGE₂ hipotalâmica no grupo tratado com LPS, o qual foi reduzido pelo pré-tratamento com TZP, sugerindo que o efeito antipirético do fármaco seja mediado pela inibição da síntese central de PGE₂. Nas ratas fêmeas, os níveis de PGE₂ hipotalâmica permaneceram semelhantes entre os grupos tratados com TZP, indicando uma modulação diferenciada da via inflamatória central pelo fármaco neste sexo. Os níveis séricos de IL-10 aumentaram significativamente após a administração de LPS em ambos os sexos, porém, o tratamento com TZP não alterou essa resposta. Quanto ao estresse oxidativo, observou-se tendência de aumento na formação de ERO no sangue dos animais tratados com LPS, mais evidente em machos, embora sem significância estatística. No TAM, o grupo SAL/LPS apresentou aumento significativo de ERO em machos em comparação ao grupo controle, e o tratamento com TZP promoveu redução significativa dessa formação, sugerindo um efeito protetor antioxidante tecidoespecífico. Nas fêmeas, não foram observadas alterações significativas nos níveis de EROs no TAM. Esses dados indicam que a TZP exerce ação moduladora sobre a resposta febril por meio de mecanismos que parecem depender da inibição da síntese hipotalâmica de PGE₂, ao menos em machos. Além disso, a TZP demonstrou capacidade de reduzir o estresse oxidativo no tecido adiposo marrom de machos, um tecido criticamente envolvido na termogênese e na resposta febril. As diferenças observadas entre os sexos sugerem que os hormônios sexuais podem influenciar os mecanismos de ação da TZP, conferindo proteção adicional nas fêmeas contra a inflamação exacerbada. Estes achados ampliam o conhecimento sobre os efeitos terapêuticos da TZP para além do controle glicêmico e da redução de peso, indicando potencial de aplicação em condições caracterizadas por inflamação sistêmica e estresse oxidativo. Estudos futuros são necessários para elucidar os mecanismos moleculares precisos pelos quais a TZP modula a febre de forma sexo-dependente e para investigar a relevância clínica desses efeitos em humanos.