"Efeitos metabólicos da exposição perinatal ao nonilfenol em camundongos"
"Obesidade; Doenças metabólicas; Disruptores endócrinos."
"A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo e representa um importante problema de saúde pública global, devido à sua associação com aumento da morbidade e mortalidade. Seu desenvolvimento é multifatorial, envolvendo suscetibilidade genética, e fatores ambientais, a exemplo de estilo de vida, como dietas ricas em gordura (DRGs), além de distúrbios hormonais e metabólicos. Nos últimos anos, tem havido crescente atenção aos compostos desreguladores endócrinos (DEs) como contribuintes ambientais para a obesidade, uma vez que eles podem interferir na sinalização hormonal, na homeostase energética e no desenvolvimento do tecido adiposo. Alguns DEs, conhecidos como obesogênicos, promovem a diferenciação de adipócitos e o acúmulo de gordura, especialmente quando a exposição ocorre durante janelas críticas do desenvolvimento. O nonilfenol (NF), um alquilfenol amplamente utilizado e xenoestrogênio derivado de surfactantes industriais, é um DE persistente e lipofílico capaz de interagir com receptores de estrogênio e desregular o metabolismo. Estudos experimentais sugerem que a exposição ao nonilfenol pode influenciar a adipogênese e os desfechos metabólicos, com efeitos aparentemente mais pronunciados após exposição precoce na vida. O objetivo deste estudo foi investigar o efeito da exposição ao NP durante períodos críticos do desenvolvimento sobre desfechos metabólicos em camundongos C57Bl/6 machos e fêmeas. Camundongos C57BL/6J machos e fêmeas foram utilizados como geração parental (F0) e sua prole como geração descendente (F1). As fêmeas da F0 foram expostas a uma concentração ambientalmente relevante de nonilfenol (0,25 mg/kg/dia) ou ao veículo (DMSO), através da água de beber, por uma semana antes do acasalamento e durante toda a gestação e lactação (com duração total de 7 semanas de exposição). A geração F1 foi dividida e alimentada com dieta controle (CD) ou DRG contendo 30% de gordura. Os animais da F1 foram submetidos à avaliação do peso corporal e do consumo alimentar, à análise do gasto energético por meio de um sistema de monitoramento metabólico até as 28 semanas de idade, além dos testes de tolerância à glicose e à insulina, e à eutanásia para avaliação da função mitocondrial do tecido adiposo branco subcutâneo (TABs) por respirometria de alta resolução. A DRG aumentou o peso corporal em todos os grupos de machos. A exposição ao NF associada à dieta controle aumentou o peso corporal dos machos em comparação ao grupo veículo, efeito que não foi observado nos machos expostos ao NF e à DRG. No entanto, o grupo de machos expostos a DRG+NF apresentou redução do gasto energético. O metabolismo da glicose não foi alterado em nenhum dos grupos. A análise mitocondrial do TABs de machos revelou um efeito do NF sobre o complexo I do sistema de transporte de elétrons, bem como um efeito da dieta sobre o vazamento de prótons referente à respiração dependente dos complexos I + II e sobre a capacidade máxima do sistema de transporte de elétrons. Apesar disso, não foram observadas interações significativas entre dieta e exposição ao NF. Não houve diferença entre os grupos de fêmeas em nenhuma das análises. Este estudo sugere que a exposição perinatalao NF altera a programação metabólica em descendentes machos, especialmente no contexto da dieta, ao afetar o gasto energético e a função mitocondrial no TABs. A ausência de efeitos semelhantes nas fêmeas destaca a relevância do dimorfismo sexual nas respostas metabólicas a DEs. Esses achados reforçam a necessidade de compreender melhor como a exposição precoce a DEs interage com a dieta e a função mitocondrial durante o desenvolvimento. Além disso, o uso de uma dieta moderadamente rica em gordura mostrou-se suficiente para induzir ganho de peso relevante, permitindo a identificação de interações entre dieta e exposição química sem provocar disfunções metabólicas graves."