Roteiro clínico de dispensação de medicamentos: desenvolvimento, validação e testagem das competências clínicas em diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e asma
dispensação farmacêutica; roteiro clínico; competências clínicas; validação de conteúdo; diabetes mellitus; hipertensão arterial sistêmica; asma.
Introdução: A dispensação farmacêutica constitui uma atividade clínica que envolve avaliação da farmacoterapia, orientação sobre o uso dos medicamentos, identificação de aspectos relacionados à efetividade e à segurança, abordagem da adesão ao tratamento, monitoramento, registro e comunicação com o paciente. Entretanto, a variabilidade na realização dessas atividades pode resultar em diferenças na abrangência e na qualidade do atendimento. A utilização de instrumentos estruturados pode contribuir para organizar o processo de dispensação e apoiar o farmacêutico na execução das competências clínicas necessárias durante o atendimento. Objetivo: Desenvolver e validar um roteiro clínico de dispensação farmacêutica e testar sua utilização na dispensação de medicamentos para diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e asma, comparando o desempenho nas competências clínicas avaliadas em dispensações realizadas sem e com o roteiro. Métodos: A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas sequenciais e complementares. A primeira, de natureza metodológica, compreendeu o desenvolvimento do roteiro clínico e sua validação de conteúdo. A construção inicial contou com a participação de 14 profissionais, sendo nove farmacêuticos atuantes na dispensação e cinco pesquisadores com experiência na área. A validação foi realizada pela Técnica Delphi, em duas rodadas, com 30 especialistas na primeira e 17 na segunda. Os itens foram avaliados quanto à representatividade, clareza, objetividade e precisão, considerando-se adequado Índice de Validade de Conteúdo (IVC) igual ou superior a 0,78. A segunda etapa correspondeu à testagem do roteiro em dispensações de medicamentos para diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e asma, por meio de estudo prospectivo, controlado e não randomizado, realizado entre junho de 2025 e maio de 2026. Foram comparadas dispensações realizadas segundo a prática habitual, sem o roteiro, e dispensações realizadas com o apoio da ferramenta. A unidade de análise foi cada dispensação registrada. O desempenho nas competências clínicas foi avaliado pelo instrumento DISP-BRASIL, composto por 15 critérios distribuídos em cinco domínios e pontuados em escala de 0 a 2. O escore global foi obtido pelo somatório das médias dos 15 critérios, sendo o desempenho classificado em competências iniciais, intermediárias ou avançadas. Os dados foram analisados por estatística descritiva e a diferença relativa entre as condições foi expressa pela variação percentual.Resultados: Na etapa de validação, os critérios de representatividade, clareza e precisão alcançaram consenso em todas as seções avaliadas na primeira rodada. A objetividade das seções Acesso e Disponibilidade e Segurança apresentou IVC de 0,70, sendo reformulada e submetida à segunda rodada, na qual os itens reavaliados alcançaram IVC de 1,00. Na etapa de testagem, foram observados maiores escores globais de competências clínicas nas dispensações realizadas com o roteiro nas três condições investigadas. No diabetes mellitus, o escore global passou de 18,52 para 22,52 pontos; na hipertensão arterial sistêmica, de 15,66 para 22,24 pontos; e na asma, de 15,21 para 22,60 pontos. Nas três condições, os escores globais passaram da faixa de competências intermediárias para avançadas. As maiores diferenças concentraram-se, em proporções distintas, em competências relacionadas à avaliação clínica, contraindicações, interações medicamentosas e reações adversas, situações especiais, evolução do tratamento, registro clínico e abordagem da adesão. Competências já mais presentes na prática habitual, como acolhimento, identificação do usuário e comunicação, apresentaram diferenças menores entre as condições. Discussão: Os achados indicam que a sistematização proporcionada pelo roteiro esteve associada a uma abordagem mais abrangente de componentes clínicos da dispensação, especialmente daqueles que apresentavam menor desempenho na prática habitual e que exigem avaliação mais aprofundada da farmacoterapia. A manutenção de diferenças menores em competências já executadas com maior frequência sugere que a principal contribuição do roteiro ocorreu na organização de aspectos menos incorporados à rotina da dispensação. A consistência desse padrão em diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e asma, apesar das particularidades farmacoterapêuticas de cada condição, reforça a possibilidade de utilização de uma estrutura comum de apoio à dispensação, adaptável às necessidades clínicas específicas. A abordagem da adesão apresentou melhora no desempenho nas três condições, porém, neste estudo, foi avaliada como uma competência desenvolvida pelo dispensador durante o atendimento. A mensuração da adesão do paciente ao longo do tratamento, assim como de desfechos clínicos e humanísticos, não integrou o objetivo desta etapa e requer estudos subsequentes com delineamentos específicos de acompanhamento. Conclusão: O estudo possibilitou o desenvolvimento e a validação de conteúdo de um roteiro clínico estruturado para a dispensação farmacêutica e sua posterior testagem em três condições crônicas. As dispensações realizadas com o apoio do roteiro apresentaram maiores escores de competências clínicas, com destaque para aspectos relacionados à avaliação clínica, à segurança da farmacoterapia, ao acompanhamento do tratamento e à abordagem da adesão. Os resultados sustentam a utilização do roteiro como ferramenta de apoio à organização e à qualificação da dispensação farmacêutica no momento do atendimento. Estudos posteriores poderão investigar se a qualificação observada no processo de dispensação também se relaciona a mudanças em desfechos clínicos, humanísticos e comportamentais dos pacientes.