Banca de DEFESA: Maíra Catharina Ramos

Uma banca de DEFESA de DOUTORADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : Maíra Catharina Ramos
DATA : 02/07/2026
HORA: 14:00
LOCAL: Plataforma Microsoft Teams
TÍTULO:

ALGORITMOS DE MACHINE LEARNING PARA A PREDIÇÃO DA PERSISTÊNCIA FARMACOLÓGICA NA ESQUIZOFRENIA: UMA ESTRATÉGIA PARA GARANTIR A CONTINUIDADE DO TRATAMENTO NO SUS.


PALAVRAS-CHAVES:

Inteligência Artificial; Aprendizado de Máquina; Adesão à Medicação; Esquizofrenia; Antipsicóticos


PÁGINAS: 1000
RESUMO:

Introdução: A esquizofrenia é uma condição crônica grave que afeta aproximadamente 1% da população mundial, demandando tratamento contínuo e multidisciplinar, no qual os antipsicóticos de segunda geração (ASG) desempenham papel fundamental no controle de sintomas e prevenção de recaídas. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a descontinuação do tratamento representa um desafio crítico, associada a maiores taxas de recaídas, reinternações e custos elevados. Embora os termos adesão e persistência sejam frequentemente confundidos, este estudo foca na persistência, definida como a duração contínua do uso do medicamento sem interrupções significativas ao longo do tempo. A aplicação de Inteligência Artificial (IA) em saúde pública surge como uma estratégia promissora para identificar padrões complexos em grandes volumes de dados (Big Data) e apoiar a tomada de decisão clínica. Neste contexto, definiu-se como pergunta de pesquisa “como a inteligência artificial pode apoiar no tratamento farmacológico de pessoas com esquizofrenia?”. Objetivo: O objetivo geral foi identificar como a Inteligência Artificial pode apoiar no tratamento farmacológico de esquizofrenia, desenvolvendo e validando modelos de aprendizado de máquina para a predição da persistência ao tratamento com antipsicóticos de segunda geração, a partir de dados de vida real do Sistema Único de Saúde e integrando indicadores socioeconômicos para fundamentar estratégias de precisão em políticas públicas de saúde mental no Brasil. Método: Para o alcance dos objetivos, foram realizadas duas etapas, a saber: (i) revisão sistemática, e; (ii) estudo transversal e retrospectivo, de caráter exploratório e quantitativo, baseado em dados de mundo real (RWD). Para a revisão sistemática, foi realizada busca em seis bases de dados (incluindo MedLine, Embase e Scopus). Foram incluídos estudos clínicos e observacionais que avaliam o impacto de ferramentas de IA na adesão farmacológica de pacientes com esquizofrenia, excluindo modelos animais, protocolos sem resultados, intervenções puramente digitais sem IA ou focadas exclusivamente em tratamentos não farmacológicos. A qualidade metodológica dos estudos selecionados foi avaliada pelos instrumentos RoB 2, ROBINS-I e PROBAST-AI. Para o estudo transversal retrospectivo com RWD, foi utilizada amostra composta por 30.000 observações aleatórias selecionadas de uma coorte nacional construída a partir do relacionamento (linkage) dos bancos de dados administrativos do SUS: Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA), Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), abrangendo o período de 2000 a 2015. O pré-processamento dos dados incluiu técnicas de One-Hot Encoding para variáveis categóricas e padronização (StandardScaler) para variáveis numéricas. Para capturar o efeito das desigualdades socioeconômicas, foi integrado o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) como variável contextual. Foram treinados e avaliados sete algoritmos supervisionados de classificação: Logistic Regression, Decision Tree, Random Forest, Gradient Boosting, Extreme Gradient Boosting (XGBoost), Support Vector Machine (SVM) e K-Nearest Neighbors (KNN). A performance foi avaliada utilizando métricas de acurácia, precisão, recall, F1- score e, principalmente, a Área Sob a Curva ROC (AUC ROC), aplicando técnicas de validação holdout (70:30) e validação cruzada estratificada (5-fold cross-validation). Resultados: A revisão sistemática incluiu oito estudos na síntese qualitativa. As ferramentas de IA foram classificadas em: (i) Monitoramento Visual: Aplicativos (AiCure e MedAdhere) elevaram a adesão em até 61% e melhoraram funções cognitivas; (ii) Modelos Preditivos: Algoritmos (REFS™ e XGBoost) demonstraram acurácia entre 0,59 e 0,82 na previsão de riscos de interrupção do tratamento; (iii) Mineração de Texto: O sistema MENTAT® identificou fatores sociais e clínicos de descontinuação em notas médicas não estruturadas; (iv) Suporte à Decisão Prescritiva: Regras de tratamento individualizadas aumentaram em 134% a probabilidade de sucesso clínico ao personalizar a escolha do antipsicótico inicial. A análise descritiva do banco de dados revelou uma amostra majoritariamente feminina (51%) e com idade média de 45,5 anos. Observou-se um declínio acentuado na continuidade terapêutica: a intenção de tratar caiu de 84,9% em três meses para 58,4% em nove meses, resultando em uma taxa de persistência de apenas 46,6% ao final de 12 meses e 26,6% após 24 meses. Entre os modelos testados, o XGBoost apresentou o desempenho superior, alcançando acurácia de 0,9843, AUC ROC de 0,9963 na validação holdout e 0,9629 na validação cruzada, demonstrando excelente capacidade discriminatória e calibração. O Random Forest e a Decision Tree também obtiveram bons resultados, enquanto o KNN apresentou o desempenho mais modesto. A análise de importância das variáveis destacou como principais preditores: o tipo de antipsicótico utilizado (sendo Risperidona, Olanzapina e Quetiapina os mais frequentes), o histórico de internações psiquiátricas, a faixa etária do paciente, o tempo de uso prévio do medicamento e o IDHM do município de residência. Discussão: A revisão sistemática realizada identificou que ferramentas de IA, como aplicativos de monitoramento e modelos preditivos (com acurácia de até 97%), elevam significativamente a adesão na esquizofrenia, melhorando sintomas psicóticos e funções cognitivas. Embora reduzam recaídas e hospitalizações, a implementação esbarra em barreiras de infraestrutura e literacia digital. Quando aplicado modelo preditivo com dados brasileiros, os achados confirmam a robustez dos algoritmos de ensemble, especialmente o XGBoost, para lidar com a complexidade e dimensionalidade de dados administrativos de saúde. A inclusão do IDHM revelou-se um diferencial metodológico crucial, evidenciando que pacientes residentes em municípios com melhores indicadores de desenvolvimento humano tendem a apresentar maior persistência ao tratamento, corroborando a influência dos determinantes sociais nos desfechos de saúde mental. Discute-se também a qualidade dos dados dos Sistemas de Informação em Saúde, apontando limitações como a incompletude de variáveis (ex: raça/cor e IMC), o que exige cautela na interpretação e reforça a necessidade de melhoria na coleta de dados no SUS. A alta taxa de descontinuação observada (53,4% em um ano) alerta para a vulnerabilidade dessa população e a necessidade de intervenções proativas. Considerações finais: Esta tese demonstra que é viável e eficaz utilizar técnicas de Machine Learning aplicadas a dados do SUS para prever a persistência ao tratamento em esquizofrenia. As evidências científicas identificados demonstram que a IA oferece soluções inovadoras, com impactos positivos em desfechos clínicos e funcionais. O modelo de RWD proposto oferece uma ferramenta potencial para gestores e profissionais de saúde identificarem precocemente pacientes com alto risco de abandono terapêutico, permitindo a implementação de intervenções personalizadas. No entanto, a implementação em larga escala enfrenta desafios como infraestrutura digital limitada, preocupações éticas sobre privacidade e a necessidade de validação externa em coortes mais robustas. Recomenda-se o fomento de estudos que validem externamente esses modelos e a integração de sistemas de apoio à decisão clínica no SUS, sempre pautados por diretrizes éticas que visem reduzir iniquidades e garantir o uso responsável da tecnologia em saúde.


MEMBROS DA BANCA:
Externa à Instituição - MONIQUE ALVES PADILHA - MS
Externo à Instituição - FELIPE FERRE - CNS
Presidente - 2221672 - HELENA ERI SHIMIZU
Externo à Instituição - MARCEL DE MORAES PEDROSO - FIOCRUZ
Interno - 1961891 - WILDO NAVEGANTES DE ARAUJO
Notícia cadastrada em: 25/06/2026 16:18
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