ENTRE TERRITÓRIOS E MARETÓRIOS, EXISTE UM SUS ESCOLA”: A (COM)FORMAÇÃO DOS PROGRAMAS DE RESIDÊNCIAS EM SAÚDE DO CAMPO, FLORESTA, ÁGUAS NO BRASIL.
residências em saúde; saúde rural; populações do campo, florestas e águas; formação em saúde.
Os programas de Residência em Saúde do Campo, das Florestas e das Águas no Brasil emergem, em 2015, como uma experiência político-pedagógica inédita, construída em articulação entre instituições de ensino superior (IES), o Sistema Único de Saúde (SUS) e movimentos sociais populares. Uma década depois, o Governo Federal passa a induzir sua expansão para diferentes regiões do país, fortalecendo a constituição de novos programas em parceria com instituições formadoras e organizações sociais. Nesse contexto, a dissertação teve por objetivo analisar os processos de (com)formação de programas de residências multiprofissionais em saúde do campo, florestas e águas no Brasil entre 2015 e 2026. O estudo fundamenta-se a partir de um referencial teórico crítico, ancorado na perspectiva decolonial, na teoria dos movimentos sociais populares e nos estudos sobre trabalho e educação na saúde, em diálogo com a Saúde do Campo, das Florestas e das Águas no Brasil. Trata-se de uma pesquisa qualitativa desenvolvida em duas etapas complementares: uma revisão integrativa da literatura, que analisou 37 estudos em diversas bases científicas, permitindo compreender o estado da arte (Capítulo 1), e a análise documental de sete Projetos PolíticoPedagógicos (PPP) dos Programas de Residência Multiprofissional em Saúde com ênfase em Saúde do Campo, das Florestas e das Águas aprovados até 2025 (Capítulo 2). Os PPPs analisados têm se configurado enquanto espaço de tensionamento do modelo formativo hegemônico ao incorporarem saberes, epistemologias e práticas de povos e comunidades camponesas, quilombolas e ribeirinhas. A caracterização dos Programas a partir dos PPPs indicam um crescimento frente a criação de programas na região norte do país e uma diversidade do perfil esperado do egresso. As Concepções dos PPPs sinalizam o quanto as políticas de equidade são a base para a construção desse especialista e o quanto os movimentos sociais surgem nas parcerias firmadas frente a operacionalização pedagógica. Por fim, os Valores e fundamentos políticos pedagógicos dos Programas indiciam os objetivos, as matrizes curriculares em núcleos comuns e as díspares a partir de dimensões decoloniais e das teorias dos movimentos sociais no âmbito formativo dos programas em execução. Os achados, mesmo que distantes da realidade operacional, revelam disputas epistêmicas, desafios e apostas pedagógicas que desafiam a lógica do SUS tradicional e urbano. Aponta para a necessidade de refundarmos bases pedagógicas sólidas junto às políticas de equidade a partir do caminho das residências, formando para além de profissionais, sujeitos críticos e comprometidos com um novo projeto de SUS camponês, quilombola e ribeirinho.