INJÚRIAS TRAUMÁTICAS EM PRIMATAS NÃO-HUMANOS NO DISTRITO FEDERAL E ENTORNO: CARACTERIZAÇÃO ANATOMOPATOLÓGICA E DISTRIBUIÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL
Eletrocussão, Lesão contusa, Lesão perfurocontusa
Em primatas não humanos (PNHs) de vida livre, as lesões traumáticas são frequentes e geralmente associadas a fatores antropogênicos. Os macacos são forçados a cruzar elementos perigosos e sofrem graves lesões físicas (ou morrem), como consequência de serem eletrocutados, atropelados, predados por carnívoros ou sofrerem agressão humana direta. Com o objetivo de determinar a frequência, distribuição anatômica e caracterizar os padrões das lesões traumáticas, foi realizado um estudo retrospectivo nos arquivos do Laboratório de Patologia e Perícia Veterinária na Universidade de Brasília (LPPV-UnB). Foram analisados os resultados de necropsia e os registros fotográficos de primatas não humanos; as lesões traumáticas foram separadas em traumas por energias de ordem física (eletrocussões) e por energias de ordem mecânica, segregando em traumas contusos (trauma local, politraumatismo) e perfurocontusos (predação por carnívoro e lesão por projétil de arma de pressão/fogo). Entre 2019 e 2022, a eletrocussão foi responsável por 16,5% das mortes nos PNHs, afetando principalmente os saguis de tufos pretos. Os PNHs adultos, independentemente do sexo, foram predominantemente afetados, principalmente no período chuvoso. Os membros foram as partes do corpo majoritariamente afetadas, sendo comuns lesões duplas, triplas ou múltiplas. Os achados macroscópicos incluíram principalmente queimaduras graves (Grau III e IV), com lesões ulcerativas, bolhas, exposição óssea, pelos chamuscados e exposição muscular. Os exames microscópicos revelaram necrose epidérmica, homogeneização das fibras de colágeno, núcleos epidérmicos distendidos, bolhas (aspecto de favo de mel epidérmico), necrose muscular, metalização da pele, hemorragia e congestão em órgãos internos. Os traumas por energia de ordem mecânica representaram 30,2% das necropsias realizadas nos PNHs, durante o período de 2018 e 2023. A maior frequência foi na espécie Callithrix penicillata, adultos, sem distinção para o sexo. As lesões contusas foram mais encontradas e a cabeça foi a região mais acometida. Fraturas foram achados frequentes, com predominância de fraturas completas e fechadas, sem diferença significativa quanto ao número de fragmentos (simples ou cominutivas). Além da cabeça, os principais ossos acometidos foram os longos — especialmente o fêmur —, além do púbis e das costelas. As lesões encefálicas consistiram, predominantemente, em hemorragias e/ou lacerações associadas à perda de massa encefálica. No tórax, as alterações mais recorrentes foram hemorragia pulmonar e hemotórax, enquanto na cavidade abdominal/pélvica destacaram-se o hemoperitôneo e a laceração hepática. Lesões perfurocontusas estiveram majoritariamente relacionadas à predação por carnívoros. Casos de agressão intraespécie e ferimentos por armas de pressão foram observados em apenas dois indivíduos, respectivamente. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias inovadoras para a proteção de primatas não humanos em ambientes antropizados, incluindo ações de educação ambiental voltadas à mitigação de traumas e à promoção da conservação das espécies em paisagens dominadas por atividades humanas.