Mulheres negras, trabalho doméstico e mobilidade intergeracional: gramática da servidão e formas de recusa
mulheres negras, trabalho doméstico, mobilidade social, gramática racial, recusa
Esta parte da pesquisa apresenta uma estrutura teórico-conceitual que investiga as trajetórias intergeracionais de mulheres negras no Brasil, com foco na transição entre o trabalho doméstico remunerado (das mães) e a universidade (das filhas). Partindo de uma crítica epistemológica aos modelos clássicos de mobilidade social, acusados de androcentrismo, eurocentrismo e de patologizar as experiências negras, propõe-se um quadro analítico centrado no tripé gramática racial, práticas de recusa e projetos de futuridade. Argumenta-se que a experiência das mulheres negras é estruturada por uma "gramática da servidão" (Spillers, 2021), que no Brasil adquire contornos específicos através do mito da democracia racial e da tríade situacional mulata-doméstica-mãe preta (González, 2018). Contra essa gramática, que designa um "lugar natural" de servidão, as mulheres negras elaboram práticas cotidianas de recusa e investem em projetos de futuridade (Campt, 2017), transformando o trabalho doméstico,
paradoxalmente, em plataforma para estratégias de mobilidade. Conclui-se que a mobilidade social para
mulheres negras deve ser compreendida não como ascensão linear, mas como um ato político coletivo e
intergeracional de desobediência gramatical, que visa descolonizar o imaginário social e reescrever as
possibilidades de existência negra.