Autonomia e politização do teatro brasileiro
história do teatro; festivais de teatro; artes cênicas; escândalo moral; politização; autonomia e heteronomia;
A tese investiga as relações entre autonomia e politização no teatro brasileiro a partir de uma sociologia do campo teatral, defendendo que a politização do teatro tem sido um dos motores centrais de sua autonomização no Brasil. Na primeira parte, a tese reconstrói a gênese e a estrutura desse campo, analisando a história social do teatro, o papel dos festivais e dos programas de pós-graduação em artes cênicas na produção de hierarquias, crenças e formas de consagração. Mostra como a modernização do teatro brasileiro buscou autonomia em relação ao modelo comercial, o qual era dependente da média moral da sociedade e, em razão disso, reprodutor de formas estigmatizadas. Os movimentos de politização nacional, racial, regionalista e de classes implicaram na autonomização do modelo comercial e na inversão da reprodução para a produção simbólica. Desse processo histórico consolidam-se duas formas institucionais analisadas: os festivais de teatro e os programas de pós-graduação em artes cênicas. A análise de correspondências múltiplas revela hierarquias entre os festivais e quatro agrupamentos principais: os festivais restritos, amplos, médios e locais – nos quais a internacionalização e a politização são distintivas. Os programas de pós-graduação disputam a illusio do campo teatral, em que a politização se reconverte em critérios estéticos próprios, ao mesmo tempo em que se relacionam com as produções determinadas pelas editoras – organizando uma fábrica de revoluções simbólicas. Na segunda parte, a tese analisa como essas estruturas se atualizam no caso do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, examinando as disputas morais, políticas e religiosas em torno da obra. As diferentes trajetórias sociais das artistas convergem em uma crença comum ao campo teatral: a politização. Cotejadas à exegese da peça, essas trajetórias permitem compreender a operação simbólica decisiva de inverter a expectativa do polo teatral e de utilizar o repertório cristão a favor da politização contra a estigmatização da transgeneridade, em um movimento interno, visando às regras teatrais, e externo, visando ao debate público. Quanto a esse último, a tese analisa as disputas em torno da peça a partir de seis casos de perseguição, mostrando a tomada de posição de diversos agentes políticos como forma de moralização política, em meio às transformações no jogo político nacional: a revolução simbólica empreendida força a objetivação, na medida em que a peça de teatro se faz boa para disputar. À luz desses resultados, a autonomia não se constituiu em aversão à política, mas por incorporação e refração ao campo. Ao evidenciar a politização como illusio do campo, é possível repensar a relação entre autonomia, heteronomia, engajamento e produção simbólica nos campos culturais.