Retalhos: Relatos de mães perfomando as dimensões expressivas da violência de Estado, o que a linguagem esconde ou que revela.
Violência de Estado; Letalidade Policial; Sociologia Clínica; Literatura e Sociedade; Mães de Goiás
A presente tese investiga as dimensões expressivas e simbólicas da violência de Estado em Goiás, tomando como foco analítico as performances de luto e luta de mães e companheiras cujos filhos ou parceiros foram vítimas da letalidade policial ou da negligência institucional. O objetivo central consiste em interpretar os enunciados sutis e midiáticos que operam na legitimação da força estatal, compreendendo como essas mulheres convertem a dor privada em agência política e ação coletiva organizada. Metodologicamente, a pesquisa assume uma abordagem qualitativa e transdisciplinar, estruturando-se a partir de um tripé teórico composto pela sociologia política da violência, pela relação entre sociologia e literatura, e pelas premissas da sociologia clínica e psicossociologia. A triangulação de fontes articula entrevistas biográficas profundas e a escuta sensível de integrantes de movimentos sociais, como o Coletivo Mães Pela Paz (GO), com a análise de acervos jornalísticos, laudos periciais e documentos oficiais de direitos humanos. Os resultados apontam que a violência letal oficial no território goiano não constitui um desvio fortuito, mas sim uma tecnologia de governo estrutural que escolhe recortes raciais, de classe e territoriais específicos. Conclui-se que, ao fraturar as narrativas burocráticas e jurídicas que desumanizam as vítimas, a linguagem construída por essas mães em movimento funciona como um potente dispositivo de resistência pragmática, capaz de restabelecer a alteridade e inscrever memórias contra o silenciamento institucionalizado.