BOTÂNICA DE OSSOS O funcionamento clandestino da casa de Petrópolis
Casa da Morte; Centro clandestino de Petrópolis; aparato repressivo
Esta dissertação analisa a casa de Petrópolis, mais conhecida como Casa da Morte, como aparelho clandestino de repressão e enquanto espaço assombrado pela presença espectral dos desaparecidos políticos. Partindo da figura do desaparecido como estorvo temporal e espacial, cuja morte é indefinidamente adiada e cujo luto permanece inacabado, investigo como o dispositivo do desaparecimento forçado, operado pelo Estado ditatorial brasileiro, desarticula as fronteiras entre vida e morte, passado e presente, familiar e infamiliar. Inspirada na noção de espectralidade de Jacques Derrida e em debates sobre desaparecimento, memória, violência de Estado e espacialidade, a pesquisa articula tempo e espaço para compreender a lógica de funcionamento do centro clandestino de Petrópolis. O percurso analítico desdobra-se em três camadas: na clandestina, detenho-me a examinar o desaparecimento forçado como categoria específica de violência de Estado, em oposição à equiparação automática entre desaparecido e morte e em sua dimensão de arma de guerra contrainsurgente, além de destrinchar o centro de Petrópolis como engrenagem da máquina desaparecedora; na visível, associada à estrutura, à finalidade e à inserção institucional do aparelho no sistema repressivo, evidenciando uma unidade repressiva altamente planejada e organizada, sob comando do Centro de Informações do Exército e integrada, funcional e logisticamente, à estrutura formal repressiva; na invisível, realizo a reconstituição do caminho percorrido até a localização precisa do centro e a publicização da denúncia de Inês Etienne Romeu em 1981, bem como da ampla disseminação do seu relato testemunhal pela imprensa à época e, por fim, das operações de ocultação coordenadas pelos serviços de informação. Com isso, procura-se apresentar o centro clandestino como uma unidade repressiva altamente planejada e organizada; longe de ser improvisado, ele respondia a manuais de instrução de guerra contrarrevolucionária e funcionava como base de sigilo operacional, assegurando a confidencialidade e a compartimentação da missão. A casa, usada para tornar mais ágil e intensa a atuação da repressão no decurso do processo de desestruturar as organizações da esquerda armada, transformou-se em uma indistinção entre familiar e estranho, abrigo e túmulo, respondendo aos propósitos tático-operacionais repressivos da ditadura militar brasileira.