Incontinência de pena: Lima Barreto e os diplomatas na República das Letras (1900-1922)
Lima Barreto; diplomacia; Itamaraty.
Nesta pesquisa apresento as perspectivas de Lima Barreto acerca da República brasileira das letras e da diplomacia, do funcionamento do Itamaraty, além de suas opiniões sobre relações internacionais, com base em seus escritos. Intelectual com inserção na engrenagem política do Estado, Lima Barreto escreve a partir do Rio de Janeiro do início do século XX, contemporâneo, portanto, do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia nacional, que ocupou a posição de ministro das Relações Exteriores entre 1902 e 1912. Além disso, o autor é coetâneo da decisão de se admitir a primeira mulher diplomata, o que representa mudança na tradicional estrutura do Ministério das Relações Exteriores. O escritor carioca também tem como pano de fundo de sua escrita eventos que convulsionam o cenário internacional da época, como a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa. A análise dos escritos de Lima Barreto confere uma perspectiva que foge às fontes oficiais, extensamente pesquisadas por historiadores da política externa do Brasil. Diplomatas são frequentemente retratados como personagens na obra de Lima Barreto, na qual aparecem como sujeitos que privilegiam a forma, em detrimento do conteúdo. Apresento e analiso a cobertura conferida a assuntos internacionais em sua produção não literária, a fim de verificar o pensamento de Lima Barreto sobre a atuação externa do Brasil. O cronista sustentava postura crítica e combativa em relação à atuação do Ministério das Relações Exteriores, sem de fato sugerir medidas práticas sobre como deveria se guiar nossa chancelaria. No início do século XX, Lima Barreto testemunha o nascimento daquilo que hoje é conhecido como diplomacia cultural ou política externa cultural, que se estruturou inicialmente pela difusão da língua portuguesa no exterior. A isso se deve ao fato de que historicamente havia uma gama significativa de escritores nos quadros no Itamaraty. A Academia Brasileira de Letras (ABL) escancarava suas portas a diplomatas e as fechava para escritores como Lima Barreto. O escritor não deixa de representar contra os membros do serviço exterior e contra a própria política externa brasileira em suas obras de não ficção, descontentamento que transferia também para a ficção. Em 1915, o escritor Lima Barreto publicou, em formato de livro, aquele que se tornaria um dos clássicos maiores da literatura nacional: Triste fim de Policarpo Quaresma. No ano seguinte, a obra recebia crítica elogiosa no jornal de grande circulação O Estado de S. Paulo. O autor do texto era o reconhecido historiador e diplomata Oliveira Lima. Em Triste fim, Lima Barreto revelava-se descontente com a condução da política da República recém-instituída, que se reverberava para a atuação do país, com consequências externas, na Revolta da Armada. Oliveira Lima, integrante da burocracia estatal em seu estrato mais elevado, concordava com o escritor em várias de suas críticas. Cotejo as opiniões desses dois intelectuais, de modo a identificar concordâncias e eventuais divergências em seus pensamentos. Por fim, as posições de um escritor baseado no Rio de Janeiro, então capital da República, e com certa inserção no meio intelectual da época, podem revelar uma interpretação própria dos eventos que ocorriam em uma fase considerada áurea pela historiografia da política externa do Brasil, com um olhar privilegiado de um sujeito que testemunha os acontecimentos à medida que eles ocorrem, sucedâneos esses que passaram à história como um período de auge da diplomacia brasileira.