Como se Formam Patrícios Negros: Educação, Trabalho e Relações Raciais no Rio de Janeiro e no Recife (1930-1956)
Patrícios negros; Trabalho; Associativismo negro; Educação; Getúlio Vargas.
A tese analisa as biografias políticas dos patrícios negros, Haroldo Costa, Ironides Rodrigues, José Cláudio do Nascimento e Joventino Cândido Ramos, entre os anos de 1930 e 1956, período que atravessa o Governo Provisório, o Estado Novo e a redemocratização pós-Vargas. O estudo objetiva investigar as estratégias educacionais, laborais e de sociabilidade construídas por esses sujeitos para negociar sua cidadania junto ao Estado e afirmar sua identidade como patrícios negros. A pesquisa adota a história oral como metodologia central, articulada à análise de fontes jornalísticas, documentos de arquivos públicos e do arquivo familiar da autora, e organiza a investigação em três eixos, a educação, o trabalho e as relações raciais. O estudo revela que os quatro protagonistas desenvolvem, entre altas taxas de analfabetismo e políticas educacionais eugênicas, estratégias próprias de alfabetização e letramento político, do curso do Teatro Experimental do Negro às escolas fundadas por José Cláudio do Nascimento na região portuária e em favelas cariocas. A pesquisa demonstra também que as identidades operária e negra caminham juntas na trajetória desses homens, seja pela via do comunismo, seja pela via do nacionalismo varguista, e que a afirmação racial permanece central mesmo em filiações políticas que minimizam essa pauta. No campo das relações raciais, o estudo mapeia lugares de memória e redes associativas e recorre ao conceito de classe média negra metafórica, de Kim Butler e demonstra que o prestígio social não protege os patrícios da violência de Estado. A tese conclui que a experiência negra no pós-abolição brasileiro não constitui um bloco fixo e homogêneo, mas resulta de múltiplas estratégias políticas, por vezes contraditórias, inteligíveis à luz de uma busca comum por reconhecimento, ascensão e cidadania plena. O trabalho contribui, assim, para uma historiografia do associativismo negro menos centralizada no eixo Rio-São Paulo, resgata trajetórias pouco ou nada documentadas e valida os arquivos familiares como fonte histórica.