Análise do Processo Hidrogeomorfológico de Terras Caídas no Rio Amazonas a partir de imagens SENTINEL-1 GRDH
Terras caídas; erosão marginal; Rio Solimões; hidrogeomorfologia; sensoriamento remoto; Sentinel-1; SAR; Amazônia.
As Terras Caídas constituem um dos processos hidrogeomorfológicos mais recorrentes e impactantes da Amazônia, caracterizando-se pelo recuo abrupto ou progressivo das margens fluviais em decorrência da ação combinada do solapamento basal, da saturação hídrica e da instabilidade de sedimentos inconsolidados. No Rio Solimões, esse fenômeno apresenta elevada relevância ambiental, territorial e social, pois afeta diretamente comunidades ribeirinhas, áreas produtivas, infraestrutura local e a própria dinâmica de reorganização da planície fluvial. Diante desse contexto, o presente trabalho teve como objetivo analisar a evolução espaço-temporal dos processos hidrogeomorfológicos de erosão marginal e terras caídas em um trecho do Rio Solimões localizado a oeste da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no estado do Amazonas, no período de 2017 a 2024, com ênfase na identificação, quantificação e estimativa volumétrica das áreas erodidas. Metodologicamente, a pesquisa baseou-se em uma abordagem integrada de sensoriamento remoto por radar, geoprocessamento em ambiente SIG e análise espacial automatizada em Python. Foram utilizadas imagens SAR do satélite Sentinel-1, produto GRDH, modo IW e polarização VV, selecionadas com base em critérios hidrológicos e geométricos, de forma a garantir comparabilidade multitemporal sob condições semelhantes de nível d’água. O processamento inclui etapas de recorte espacial, multilooking, calibração radiométrica, correção geométrica, empilhamento e detecção de mudanças por composição RGB entre pares anuais de imagens, permitindo classificar áreas de erosão, sedimentação e estabilidade. Para o suporte altimétrico e a estimativa volumétrica, utilizou-se o modelo digital de elevação FABDEM, complementado por bases temáticas de geologia, pedologia, geomorfologia, vegetação e declividade. A partir dessas informações, foram realizadas análises da distribuição da erosão por classes altimétricas, estimativas volumétricas de material erodido, correlação com variáveis ambientais e elaboração de mapa de suscetibilidade à ocorrência de terras caídas. Os resultados evidenciaram que a erosão marginal no trecho estudado apresenta forte controle topográfico e geomorfológico, concentrando-se majoritariamente nas faixas altimétricas mais baixas, especialmente entre 28-38 m e 38-48 m, que responderam pela maior parte das perdas anuais em área e volume. A estimativa integrada indicou que o volume total de material erodido entre 2017 e 2024 alcançou 641.468.508 m³, com predominância da classe altimétrica de 38-48 m, responsável por 43,6% do volume total, seguida pelas classes 48-58 m e 28-38 m. Em termos espaciais, a erosão mostrou-se fortemente associada a depósitos aluvionares holocênicos, Neossolos Flúvicos, Gleissolos, superfícies de planície fluvial ativa e setores de baixa altitude e baixa declividade regional, demonstrando que a instabilidade marginal está mais relacionada à fragilidade dos materiais e à dinâmica hidrossedimentar do canal do que a elevados gradientes topográficos. A análise temporal revelou comportamento interanual não linear, com maior intensidade erosiva nos períodos de 2018-2019 e 2023-2024, sugerindo associação entre a ocorrência de terras caídas e contextos de maior instabilidade hidrológica. Embora a relação entre vazão média anual e erosão não tenha se mostrado estritamente linear, os resultados indicam tendência de aumento da atividade erosiva em anos marcados por maior variabilidade hidroclimática, reforçando a influência do regime de cheias e vazantes na desestabilização das margens. O mapa de suscetibilidade mostrou concentração das classes alta e muito alta ao longo das margens ativas do Solimões, principalmente onde coexistem sedimentos aluvionares recentes, solos hidromórficos, baixas cotas e elevada mobilidade
fluvial. Conclui-se que as terras caídas no médio Solimões constituem um processo espacialmente seletivo e temporalmente pulsante, controlado pela interação entre hidrodinâmica fluvial, natureza sedimentar do substrato, condições topográficas e variabilidade hidrológica. O uso de imagens Sentinel-1 mostrou-se altamente eficaz para o monitoramento multitemporal da erosão em ambiente amazônico, superando limitações impostas pela cobertura de nuvens e permitindo a geração de informações consistentes para análise hidrogeomorfológica. A pesquisa contribui para o avanço científico nas áreas de hidrogeomorfologia fluvial, movimentos de massa e sensoriamento remoto, além de fornecer subsídios relevantes para o planejamento territorial, a gestão ambiental e a prevenção de riscos em áreas ribeirinhas da Amazônia.