Entre prazos e adiamentos: uma leitura psicanalítica do sofrimento discente na Pós-graduação
psicanálise; pós-graduação; sofrimento discente; temporalidade.
A pós-graduação stricto sensu constitui um espaço de formação de pesquisadores e produção de conhecimento atravessado por prazos, exigências acadêmicas e diferentes modos de relação com o saber. Esta pesquisa qualitativa voltou-se ao sofrimento discente diante dos adiamentos e das dificuldades que atravessam a formação, tomando a psicanálise de orientação freudo-lacaniana como referencial teórico. O objetivo geral foi compreender como o sofrimento psíquico de discentes da pós-graduação se manifesta ao longo desse percurso, considerando sua relação com o saber e com o tempo institucional, buscando-se, mais especificamente, analisar os sentidos atribuídos aos adiamentos e prorrogações vivenciados durante a formação e investigar de que modo as dificuldades encontradas atravessam a experiência dos estudantes diante das exigências de desempenho e conclusão. A investigação foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília (PPGE/UnB), com dez participantes, sendo cinco do mestrado acadêmico e cinco do doutorado acadêmico. Os dados foram produzidos por meio de entrevistas semiestruturadas, gravadas, transcritas e analisadas por meio da análise de conteúdo proposta por Bardin (1991). As entrevistas mostraram que o sofrimento não manteve uma relação direta com o cumprimento ou o adiamento dos prazos: estudantes que avançavam dentro do tempo institucional também relataram sofrimento intenso, enquanto os adiamentos assumiram sentidos distintos ao longo das trajetórias. Foram relatados esgotamento, ansiedade, manifestações físicas, redução do descanso, conflitos familiares e conjugais, dificuldades nas relações de orientação, insuficiência de espaços institucionais para falar sobre as dificuldades e desigualdades nas condições de realização da pesquisa. Por outro lado, relações de orientação marcadas pelo diálogo e pela presença, apoio de colegas e familiares, terapia, bolsas e afastamentos profissionais contribuíram para sustentar os percursos. No balanço das trajetórias, a pós-graduação apareceu tanto como espaço de aprendizagem, transformação e construção de uma posição como pesquisador quanto como uma experiência visceral capaz de produzir sofrimento com repercussões importantes na saúde, nos vínculos e na vida cotidiana dos estudantes.