Vivências da perinatalidade de mulheres com Diabetes Mellitus Tipo 1: Uma escuta psicanalítica
Psicanálise; corpo; diabetes mellitus tipo 1; perinatalidade; violência obstétrica
O Diabetes Mellitus (DM) é definido como uma doença crônica metabólica, caracterizada por hiperglicemia persistente causada pela ausência ou deficiência na produção e/ou secreção de insulina. Tem-se como foco central deste estudo o diabetes mellitus tipo 1 (DM1), no qual o sistema imunológico destrói as células beta pancreáticas, ocasionando a deficiência de insulina no organismo. Sendo uma doença crônica e autoimune, o DM1 não tem cura até o presente momento, e seu tratamento baseia-se em insulinoterapia, com múltiplas aplicações diárias, além de planejamento alimentar, atividade física diária e outros medicamentos hipoglicemiantes, possível um controle glicêmico adequado. Sabe-se que índices elevados de glicose no sangue e níveis crescentes de hemoglobina glicada (HbA1c) periconcepcional e ao longo da gestação estão relacionados ao risco aumentado para complicações obstétricas e fetais, como pré-eclâmpsia, malformações, bebê grande para a idade gestacional, aborto espontâneo, prematuridade e morbidade neonatal. Assim, para que a gestação ocorra de forma saudável, orienta-se que mulheres com DM1 que desejam engravidar busquem um planejamento prévio, com um acompanhamento multidisciplinar ao longo de todo o processo. A partir do relato de gestantes diabéticas, destacou-se no discurso destas o momento em que se esbarraram com a possibilidade de suas questões de saúde comprometerem um desenvolvimento saudável de seu bebê. Desta forma, na presente pesquisa busca-se questionar, a partir da escuta de mulheres mães com diabetes tipo 1, qual efeito que tal vivência com a doença tem na experiência da perinatalidade para estas mulheres. Em um contexto de alguém que precisa cuidar tanto de si, em uma vigilância contínua do próprio corpo, como se dá a passagem para se incumbir de cuidar de outro de forma tão integral? No artigo 1, busca-se investigar de que forma a psicanálise pode contribuir frente ao diagnóstico de uma doença crônica como o diabetes mellitus tipo 1 (DM1). Para isso, investiga-se as diferentes visões atribuídas ao corpo e ao processo saúde-doença, assim como a construção do estatuto do corpo para a psicanálise. Por fim, a partir das contribuições de quatro pesquisas psicanalíticas em instituições de saúde com pessoas com DM1, reflete-se os possíveis entrelaçamentos entre o discurso médico e o discurso psicanalítico e de que forma a psicanálise pode contribuir em relação ao tratamento do diabetes tipo 1. O artigo 2 visa relatar o que dizem as mulheres com diabetes tipo 1 sobre a vivência da perinatalidade, a partir da escuta psicanalítica. Para isso, foram realizadas 10 entrevistas, que resultaram em 3 eixos construídos após a escuta das participantes e leitura dos materiais. A discussão destes se deu à luz dos referenciais teóricos psicanalíticos, buscando refletir quais aspectos podem surgir frente à experiência de uma gestação tendo diabetes tipo 1. No artigo 3, buscou-se retratar o que foi dito por mulheres com diabetes tipo 1 sobre a vivência da gestação e do parto, e analisar como o emergiu desta experiência pode ser lido como experiências de violência obstétrica. Assim, discorreu-se sobre o que foi abordado por essas mulheres para refletir e questionar de que forma a psicanálise faz frente à tais violências. Por meio desta dissertação, conclui-se a necessidade em retomar para essas mulheres a autonomia e o protagonismo frente aos seus corpos na experiência perinatal. O compromisso da psicanálise enquanto práxis propõe um olhar à dimensão política, social e cultural do sofrimento humano, contribuindo para uma prática não violenta e voltada para a escuta e o cuidado, exercendo uma função de denúncia enquanto avesso do discurso médico. Escrever sobre a violência contra as mulheres, e neste caso a violência obstétrica, se dá como uma das formas de questionar e denunciar como tais violações estão enraizadas na estrutura social e buscar meios, nos âmbitos coletivos e individuais, de fazer frente a estas violências. A partir destes recortes, espera-se abrir espaço para questionar as práticas e a cultura que circunda a perinatalidade e a maternidade, recobrando o saber para o sujeito.