Práxis em Saúde Mental em Centros de Atenção Psicossocial III do Distrito Federal
reforma psiquiátrica brasileira; saúde mental; práxis; paradigma; Centro de Atenção Psicossocial.
Esta dissertação analisa a práxis em saúde mental de dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) tipo III do Distrito Federal, sendo um de modalidade geral e outro voltado para álcool e outras drogas (AD). Fundamentada na categoria de práxis da tradição marxista e nos pressupostos da Reforma Psiquiátrica Brasileira, a pesquisa investiga as contradições entre o projeto ético-político da atenção psicossocial e o cotidiano institucional. Metodologicamente, trata-se de um estudo exploratório de abordagem qualitativa, que utilizou a triangulação de dados por meio de análise documental, observação participante e grupos focais com trabalhadores e usuários. Os resultados foram organizados em cinco eixos temáticos: 1) O lugar do CAPS no social; 2) Capsização; 3) As terapêuticas do e no CAPS; 4) A “alta” do CAPS; e 5) O desamparo dos trabalhadores. Os achados revelam que o CAPS frequentemente assume uma função de "suporte básico de vida" e "tapa -buraco social", centralizando demandas que extrapolam o campo da saúde devido à fragilidade da rede intersetorial e do território. Identificou-se o fenômeno da "capsização", caracterizado pela especialização e isolamento do serviço, o que dificulta a integralidade do cuidado. No âmbito terapêutico, observou-se uma tensão entre o Projeto Terapêutico Singular (PTS) e a burocratização das práticas, além de uma demanda excessiva por atendimentos individuais. A discussão sobre a "alta" evidenciou a inexistência desse horizonte no discurso dos usuários e a angústia dos profissionais, sugerindo a produção de uma "nova cronicidade" em serviços que deveriam ser substitutivos. Por fim, o desamparo dos trabalhadores emergiu como um sintoma estrutural, agravado por políticas de gestão de pessoas generalistas e pela precariedade da educação permanente. Conclui-se que a práxis nos CAPS estudados encontra-se em constante disputa entre lógicas manicomiais e antimanicomiais, exigindo uma transformação societária mais ampla e o fortalecimento de políticas públicas intersetoriais para que o cuidado em liberdade se efetive para além dos muros institucionais.