Do Prato a Mente - Gênero, Fome e Sofrimento nas Bordas da Cidade
Segurança Alimentar e Nutricional; Insegurança Alimentar e Nutricional; Saúde Mental; Vulnerabilidade social
A insegurança alimentar e nutricional (IAN) constitui um fenômeno estrutural no Brasil, profundamente atravessado por desigualdades sociais, de gênero, raça e território, com repercussões que extrapolam a dimensão estritamente nutricional. Esta dissertação teve como objetivo investigar como a IAN se relaciona às dimensões psicossociais da vida de pessoas adultas no Brasil, articulando evidências da produção científica nacional com narrativas construídas em territórios socialmente vulnerabilizados. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa e exploratória, organizado em dois manuscritos complementares. O primeiro manuscrito consiste em uma revisão de escopo, que mapeou a produção científica brasileira recente sobre a relação entre IAN e saúde mental. Foram identificadas evidências consistentes de associação entre IAN e piores desfechos em saúde mental, especialmente sintomas depressivos, ansiedade, estresse e sofrimento psicológico, com maior exposição entre mulheres e grupos socialmente vulnerabilizados. A revisão também evidenciou a predominância de estudos quantitativos e a baixa presença de abordagens qualitativas. O segundo manuscrito corresponde a um estudo qualitativo, baseado em um grupo focal com mulheres negras residentes em território urbano marcado por vulnerabilização social. Os dados foram analisados por meio de análise temática de conteúdo, com apoio de técnicas lexicométricas. Os resultados indicam que a alimentação ocupa lugar central na organização do cotidiano, das relações familiares e da experiência emocional, sendo a IAN vivida como experiência corporal, contínua e atravessada por memória, medo e antecipação da escassez. Evidenciaram-se ainda processos avaliativos sobre a assistência alimentar, estratégias coletivas de cuidado e a politização da experiência da fome