Saúde Mental e Qualidade de Vida de Crianças e Adolescentes Órfãs do Feminicídio
Órfãos do Feminicídio; Qualidade de Vida; Saúde Mental
Esta pesquisa investiga aspectos sobre a saúde mental e a qualidade de vida de crianças e adolescentes filhos das vítimas do feminicídio. A dissertação estrutura-se em três estudos complementares que mapeiam o fenômeno desde a literatura global até a realidade empírica no Distrito Federal. O primeiro estudo, uma revisão sistemática de publicações entre 2015 e 2025, identificou que o feminicídio produz efeitos duradouros que ultrapassam sintomas clínicos, afetando dimensões psicológicas, sociais, educacionais e materiais. Os achados revelaram uma alta prevalência de luto traumático, ansiedade e queda no rendimento escolar, evidenciando, simultaneamente, uma lacuna na literatura quanto ao uso de instrumentos padronizados para medir diretamente a Qualidade de Vida (QV) entre outras variáveis psicológicas sobre o funcionamento dessa população. O segundo estudo, de natureza exploratória, o perfil de autoestima de 18 órfãos do feminicídio, moradores do Distrito Federal, por meio de dados secundários coletados pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Nessa pesquisa, foi aplicada a Escala de Autoestima de Rosenberg (EAR). Os resultados indicaram que a maioria das famílias acolhedoras enfrenta graves restrições econômicas, com 76,9% possuindo renda per capita de até um salário mínimo. Os dados da EAR mostraram que, embora a média geral fosse moderada, os menores escores estavam diretamente associados a quadros de depressão e comportamentos autolesivos, sugerindo que a baixa autoestima potencializa trajetórias de risco. O terceiro estudo avaliou a saúde mental e a Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (QVRS) de 57 órfãos do feminicídio, moradores do Distrito federal, utilizando os instrumentos KIDSCREEN-27 e RCADS-25. As escalas foram aplicadas nos Núcleos de Atendimento do Programa Direito Delas, com o auxílio de psicólogos da rede e pesquisadores devidamente treinados. Os dados apontaram que a depressão é o preditor negativo mais robusto da QVRS. Por meio de uma análise de mediação, demonstrou-se que a depressão absorve o impacto da ansiedade, funcionando como o principal mecanismo que degrada QVRS do órfão. Em síntese, a pesquisa aponta que a orfandade por feminicídio reorganiza profundamente as trajetórias de vida dessas pessoas, destacando a necessidade de abordagens intersetoriais que articulem saúde mental, proteção social e promoção da qualidade de vida. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas específicas e de práticas profissionais sensíveis aos diversos impactos do feminicídio na infância e adolescência.