Entre o sintoma e a denúncia: disputas e horizontes antimanicomiais para o cuidado de mulheres que usam drogas
Mulheres que usam drogas; luta antimanicomial; CAPSad; atenção psicossocial
A presente pesquisa tem como objetivo investigar as trajetórias de vida de mulheres que fazem uso de drogas e sua relação com o cuidado no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial. Partindo de uma concepção crítica de Saúde Mental, este trabalho discute a histórica tendência de manicomialização das mulheres, compreendendo esse fenômeno como reflexo das heranças racistas, sexistas e classistas na realidade brasileira. O processo investigativo foi operacionalizado em dois principais estudos. Inicialmente, foi realizada uma revisão integrativa de literatura visando apreender concepções e tendências na produção acadêmica nacional sobre o cuidado das mulheres na RAPS. Em um segundo momento, aprofunda-se a discussão em um estudo empírico, operacionalizado em um CAPS AD do Distrito Federal. Através de uma abordagem exploratória-descritiva, esta investigação foi composta por uma etapa de análise documental e uma etapa de observação participante - com registro em diário de campo e realização de entrevistas narrativas. Este trabalho denuncia um projeto de desassistência às mulheres por parte do Estado, através da tendência à homogeneização do cuidado e do apagamento de sua concretude. Apesar de representar um importante instrumento de garantia de direitos, a RAPS sofre processos de desmonte que atravessam o cotidiano dos serviços e a produção de cuidado. Nesse sentido, pensar um cuidado que se adeque às particularidades dos usuários perpassa, necessariamente, pelo fortalecimento da reforma psiquiátrica e das políticas públicas. Este trabalho resgata reflexões sobre a importância de novas concepções acerca do uso de substâncias, ainda compreendido sob uma ótica biomédica e proibicionista. Para tanto, nos convida a entender a luta antimanicomial como um processo radical de transformação da sociedade, a partir do qual seja possível existir e produzir uma vida mais humanizante e humanizada, com ou sem drogas.