Entre a criação e a transgressão: as maternidades na realidade brasileira
Maternidades; Psicanálise; Interseccionalidade;
Transgressão; Desejo
Esta investigação empreende uma análise psicossocial e psicanalítica das maternidades brasileiras,
compreendendo-as como fenômenos indissociáveis das desigualdades de classe, raça e gênero. Através do método
clínico-qualitativo pautado na escuta analítica, a pesquisa confronta as realidades de mulheres de classe média e
periféricas na região de Cuiabá. O estudo fundamenta-se na dialética entre lei, desejo e transgressão, evidenciando
como os ideais normativos de "boa mãe" operam como um superego punitivo. Para os sujeitos desta pesquisa, a
transgressão não se limita à quebra de normas, mas constitui um ponto de fricção necessário entre o desejo singular
e as leis simbólicas, econômicas e raciais que tentam capturá-lo. As participantes veem-se compelidas a transgredir
ou a "lei econômica" da produtividade neoliberal para exercer o cuidado, ou o "ideal da presença integral" para
garantir a sobrevivência material, pagando o preço subjetivo de qualquer escolha. A análise dos registros Real,
Simbólico e Imaginário demonstra que, embora o neoliberalismo e o racismo capturem o tempo e o corpo dessas
mães, atesta-se a indestrutibilidade do desejo. Este se manifesta em atos de resistência criadora e transgressões
éticas que recusam o sacrifício absoluto. Conclui-se que a emancipação das mulheres-mães brasileiras exige a
superação do arquétipo do sacrifício individual em favor de uma ética de responsabilidade pública. Tal transição
requer a consolidação de uma "maternagem ativista" e de políticas intersetoriais que reconheçam a maternidade
como função social, garantindo a dignidade do corpo e a soberania do desejo.