Construção entre o antigo, o novo e o amanhã: um olhar transgeracional sobre as masculinidades negras
Masculinidades Negras; Intergeracionalidade; Interseccionalidade; Racismo; Gênero.
A presente pesquisa de doutorado tem como objetivo investigar os processos de construção, produção e transmissão das masculinidades negras no Brasil sob uma perspectiva transgeracional e interseccional. Devido à escassez de estudos sobre interações geracionais sobre homens negros, a pesquisa foi estruturada em três etapas distintas. Na primeira etapa, realizou-se revisão integrativa da literatura brasileira sobre masculinidades negras no Brasil da última década (composta por 41 documentos) que revelou que as produções científicas sobre o tema se dividem em três eixos temáticos: a leitura social negativa e estereotipada (focada na criminalização e hipersexualização), os processos de resistência e ressignificação (criação de contranarrativas emancipatórias) e as vivências e autopercepção (que incluem as vulnerabilidades em saúde e a dupla exclusão de homens negros). Os achados desta revisão também evidenciaram a predominância analítica da abordagem de "Raça e Gênero" — mais focada na delimitação de opressões estruturais —, apontando para a urgência de abordagens baseadas na Interseccionalidade. O mapeamento conceitual dos estudos revelou que o conceito de Masculinidades Hegemônicas, com debates de Frantz Fanon, concepções do feminismo negro de Bell Hooks e sublinhou a relevância do "Cinturão Socioantropológico Brasileiro" (composto por Osmundo Pinho, Henrique Restier, Rolf Malungo e Deivison Faustino) nos estudos das masculinidades negras. A revisão sinaliza a necessidade de englobar as contradições, ambiguidades e a agência dos homens negros ao mesmo que demonstrar a importância de incorporar as lacunas de geração e do ciclo vital, mapeando como esses trânsitos geracionais reconfiguram as subjetividades desses homens ao longo da vida. Como desdobramentos metodológicos previstos para dar continuidade à pesquisa, a Etapa 2 propõe um estudo qualitativo transversal com entrevistas individuais envolvendo aproximadamente 30 homens negros, divididos em três recortes geracionais (18-23, 38-45 e acima de 65 anos), a fim de levantar os impactos transgeracionais do racismo em suas vivências. Por fim, a Etapa 3 prevê a realização de grupos focais multigeracionais com famílias compostas por avô, pai e filho simultaneamente, buscando mapear os roteiros culturais e valores transmitidos no seio familiar. A pesquisa espera subsidiar o desenvolvimento de políticas públicas, qualificar intervenções interseccionais e criar espaços qualificados de escuta para as trajetórias dos homens negros.